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«Onde vais comer o Natal?»
Texto Francisco Pedro | Foto Ana Paula | 24/12/2014 | 07:02
A época natalícia é uma festa da família. Os missionários nem sempre a conseguem comemorar com os familiares mais diretos. Mas mantêm bem vivas as memórias das consoadas passadas no conforto da lareira, condimentadas com o tradicional bacalhau com couves
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A pergunta podia surpreender os menos avisados, mas para o missionário da Consolata José Martins, 63 anos – grande parte deles passados em missão no estrangeiro – foi com naturalidade que se habituou a que o interrogassem na África do Sul: «onde vais comer o Natal?» ou «comeste bem o Natal?». Ali, como na maior parte das comunidades cristãs onde se celebra o nascimento de Jesus Cristo, a quadra natalícia é também um pretexto para reunir a família à volta da mesa. De tal forma, que no Canadá, por exemplo, a novena de preparação para o Natal inclui a Missa do Santo Niño, às cinco da madrugada, seguida de uma farta refeição, que mais parece um almoço, revela o sacerdote.

Voltando ao continente africano, mas neste caso a Moçambique, Diamantino Antunes, 48 anos, encontrou uma celebração completamente diferente, a começar pelo facto de ser um período de calor intenso, ao contrário do que acontece na Europa, nesta época do ano. «O calor abrasa e já aí nos precipitamos na diferença; não há presentes, o que se coaduna, principalmente nas áreas rurais, com uma sociedade onde o apelo ao consumo não existe. A própria cozinha é diferente, e a abundância é de pobreza, de simplicidade. Mas hoje, como ontem, permanece o sentido da mesa, do altar, da missa do galo celebrada à noite, entre tantos fiéis e a alegria dos cânticos. Por isso, onde agora ecoam batuques, oiço ainda os sinos da minha infância», afirma o missionário.

As diferenças acentuam-se quando se caminha para o continente asiático. «O Natal é sempre um momento muito sentido nas comunidades cristãs. Mas não é uma festa da família como a sentimos em Portugal. Porém, há uma coisa muito bonita, que é as pessoas aproveitarem a ocasião para fazerem uma assistência mais familiar aos mais necessidades, como os sem-abrigo, os doentes ou os idosos», conta Pedro Louro, 48 anos, atualmente a trabalhar na Coreia do Sul.

Para o missionário, natural de Cardigos, Mação, a razão para esta diversidade está relacionada com a questão cultural. «Na Coreia do Sul, o Natal não tem uma base cultural como tem na Europa. É um país com 200 anos de cristianismo, com muitas tradições, mas onde a tradição natalícia não é igual à europeia. Obviamente, tem a sua parte religiosa e até tem a Missa do Galo, só que temos que a celebrar às oito da noite, porque as pessoas têm que regressar a casa de transportes públicos».

A única semelhança entre o Natal sul-coreano e o europeu radica no lado mais comercial da quadra, com a troca de presentes, que simbolicamente são oferecidos pelo Pai Natal e não pelo Menino Jesus como era tradição na casa de Pedro Louro, quando era criança. «As prendas eram dadas pelo Menino Jesus e isso criou em nós uma afeição muito grande por ele. Era uma coisa muito bonita, mais familiar e afetiva, ao contrário do que acontece agora com o Pai Natal, que anda de supermercado em supermercado», recorda Pedro Louro.

José Martins, de Proença-a-Nova, agora em missão no Canadá, guarda uma imagem semelhante dos natais da sua «meninice». «Era a noite das filhoses em família – a maravilha de ver um naco de massa disforme tomar formas que, no nosso imaginário infantil, eram por si mesmas a imagem do Natal – e, na Igreja, o beijar do Menino, no presépio. Havia também o sapato na lareira – para receber o presente do Menino Jesus: um par de meias há muito esperado ou um par de sapatos há muito prometido».

Em Albergaria dos Doze, Pombal, onde nasceu Diamantino Antunes, a toada era a mesma: o Menino Jesus era o centro de todas as comemorações. «A Missa de Natal era o momento alto e a magia vinha dessa alegria, de sentir a família congregada, unida entre si e à volta de qualquer coisa que nos transcendia e irmanava: o nascimento do Deus menino. Não me lembro propriamente de presentes, mas ainda sinto o cheiro das filhoses e o aconchego da cozinha na casa dos meus pais», destaca o sacerdote.

Sintetizando, em Portugal ou no Canadá, em África ou na Ásia, o Natal cristão terá sempre um ponto comum. «É um tempo em que a família se reúne para celebrar a paz, a alegria e a gratidão. E é esse o verdadeiro presente de Deus à humanidade, pois as sociedades só têm sentido e futuro quando todos se puderem sentar à mesa do Reino. Para celebrar e ser família», conclui o padre José Martins.
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