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Opinião
Os pobres merecem mais que solidariedade
Quaresma tempo propício à prática do bem
Texto Eduardo Santos | Opinião | 19/03/2017 | 17:08
O tempo quaresmal, sendo um espaço de preparação para a Ressurreição do Senhor, deve dar lugar especial não apenas à meditação e ao sacrifício individual, mas também à abertura do nosso coração ao próximo

O Papa Francisco recordou, mais uma vez, na missa celebrada quinta-feira passada na Casa Santa Marta, que não devemos seguir a estrada do pecado, pois deste chega-se à corrupção. Por outro lado referiu que é importante que não nos fechemos em nós mesmos, ignorando os pobres que nos cercam.

Foi baseado na parábola do rico e do pobre Lázaro, do evangelho do dia, que Francisco afirmou que o «homem que confia no homem, que deposita na carne o seu amparo, isto é, nas coisas que ele pode administrar, na vaidade, no orgulho, nas riquezas, este homem se afasta de Deus». O Papa destaca assim a fecundidade do homem que confia no Senhor, e a esterilidade do homem que confia em si mesmo: «Quando uma pessoa vive no seu ambiente fechado, respira aquele ar próprio dos seus bens, da sua satisfação, da vaidade, de sentir-se seguro e confia somente em si mesmo, perde a orientação, perde a bússola e não sabe onde estão os limites».

 

Francisco vai mais longe e pergunta: «O que sentimos no coração quando caminhamos pela rua e vemos os sem-abrigo e as crianças sozinhas que pedem esmola? Esses são daquela etnia que rouba. E sigo em frente. Faço assim? Os sem-abrigo, os pobres, os abandonados, e até mesmo os sem-abrigo bem-vestidos, que não têm dinheiro para pagar o aluguel porque não possuem trabalho. O que eu sinto? Isto faz parte do panorama, da paisagem de uma cidade, como uma estátua: na paragem do autocarro, nos Correios. Os sem-abrigo fazem parte da cidade? É normal isso? Fiquem atentos! Fiquemos atentos! Quando essas coisas em nosso coração passam como normais, quando penso: mas a vida é assim, eu no entanto, como e bebo, e para tirar-me um pouco o sentimento de culpa dou uma oferta e sigo em frente. Se penso assim, este caminho não é bom».

 

O Papa utilizou ainda outra imagem para entendermos quando estamos no caminho «escorregadio do pecado rumo à corrupção». «O que eu sinto«, se pergunta, quando vejo na televisão «que caiu uma bomba lá, sobre um hospital e morreram muitas crianças», «coitadinhas!». Faço uma oração e depois continuo vivendo como se nada tivesse acontecido? Entra em meu coração isso» ou «sou como aquele rico em que o drama de Lázaro, do qual os cães sentiam mais piedade, não entrou em seu coração? Se fosse assim estaria no caminho do pecado para a corrupção».

«Por isso – lembrou o Papa – peçamos ao Senhor: Escuta, ó Senhor, o meu coração! Vê se o meu caminho está errado, se estou no caminho escorregadio do pecado rumo à corrupção». «E faz-me entender em que caminho estou, qual estrada estou percorrendo».

 

A reflexão que o Pontífice partilha connosco é importante para que fiquemos cientes da necessidade de por em prática as suas palavras. Em Portugal há mais de 2,6 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social. De referir que neste número estão incluídas as pessoas que vivem com menos de 439 euros por mês, o equivalente a 60% da mediana do salário líquido no nosso país.

«Em 2016, a taxa de privação material dos residentes em Portugal é de 19,5% e a taxa de privação material severa é de 8,4%, mantendo-se a tendência de redução das duas séries», referem os técnicos do Instituto Nacional de Estatística.

 

Recordamos que a estratégia para a Europa 2020 definiu como objectivo reduzir em 20 milhões o número de pessoas «em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia». Nesse sentido, foi definido um indicador harmonizado que permite avaliar o cumprimento desse objectivo, juntando conceitos de pobreza relativa, privação material e integração no mercado de trabalho.

Para diminuir a pobreza e exclusão social no nosso país ainda há muito a fazer e esse trabalho tem necessariamente de começar por nós. Podemos colaborar com as instituições que apoiam os mais desfavorecidos, ou sacrificar alguma das nossas despesas, porventura menos necessárias, e doar o seu valor a quem mais necessite. E, se olharmos em volta, não teremos dificuldade em fazê-lo. É para isso que serve também o tempo de quaresma, um tempo de sacrifício e amor em favor do próximo mais necessitado. Não resistamos ao apelo do Papa.

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