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Opinião
União Europeia
Dignidade, liberdade e justiça são essenciais
Texto Eduardo Santos Opinião | 26/03/2017 | 14:43
O Papa recebeu os líderes europeus, por ocasião do 60° aniversário dos Tratados constitutivos da Comunidade Europeia, e lembrou que a origem da civilização europeia está nos valores do Cristianismo

Francisco foi muito claro ao apontar os valores da dignidade, liberdade e justiça como pilares fundamentais para o prosseguimento da acção da União Europeia. Ou seja: buscar a centralidade do homem, uma solidariedade factiva, a abertura ao mundo, a busca da paz e do desenvolvimento, a abertura para o futuro.

Acentuou ainda que quem governa deve discernir os caminhos da esperança, identificar os percursos concretos para garantir que os passos significativos feitos até agora não se dispersem, mas sejam penhor de um caminho longo e frutuoso. O Papa exortou os povos europeus a reencontrar a esperança e manifestou a sua proximidade, bem como a da Santa Sé e da Igreja, a toda a Europa, contribuindo, como sempre tem feito, para a sua edificação, e invocando sobre ela as bênçãos do Senhor.

 

A realidade a que se assiste no actual contexto é bem diferente do desejo dos fundadores da União Europeia. A maioria dos 515 milhões de habitantes do espaço comunitário tem uma opinião negativa sobre o projecto europeu e, em alguns países, as taxas de reprovação atingem valores alarmantes - caso dos gregos com 71% ou dos franceses com 61%.

Sendo assim, como se compreende que os estados europeus estejam nos primeiros lugares do ranking internacional sobre desenvolvimento e bem-estar? No mais recente relatório mundial sobre a felicidade, promovido pelas Nações Unidas desde 2012 e conhecido segunda-feira passada, surgem 13 países europeus entre os 20 mais bem classificados - e 10 deles pertencem à UE. Algo idêntico se poderia concluir com o Índice de Desenvolvimento Humano ou as diferentes tabelas e listas globais sobre rendimentos e outros indicadores sociais.

Como será possível compreender o aparente avanço do europessimismo? O europessimismo tem cavalgado recentemente, em grande parte, devido aos problemas surgidos com os refugiados oriundos das zonas de guerra dos países muçulmanos, ou seja, um problema fora do seio da UE e para o qual não houve uma resposta adequada de alguns países. Os valores que presidiram ao nascimento da Comunidade Europeia foram pisados ostensivamente por alguns países, fora de uma resposta conjunta da própria Comunidade.

 

Estes 60 anos que marcaram a construção da União Europeia têm sido um caminho de avanços e recuos. Desde o Tratado de Roma até Maastricht, passando pela criação do euro e pela crise migratória, e ainda mais recentemente com a saída da Inglaterra, a tão desejada união tem sofrido rupturas graves. Estas brechas dentro da União acentuaram-se a partir de 2009, o ano em que alguns países se viram a braços com crises financeiras. Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal e Chipre pedem ajuda à Comunidade e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que impõe drásticas medidas de austeridade.

A seguir à crise financeira, a UE enfrenta a sua pior crise migratória desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a chegada de centenas de milhares de pessoas a pedir asilo, com as estruturas da UE a fracassarem na contenção da crise. Em Setembro de 2015 a Alemanha, que abriu suas portas aos imigrantes, reinicia o controlo de fronteiras. A decisão de Berlim repercute-se em outros países, principalmente da Europa central, que não querem receber refugiados.

A crise do Brexit foi um novo golpe na União Europeia, já debilitada pelo avanço das formações antieuropeias. Em Junho de 2016 cerca de 17,4 milhões de britânicos, 51,9% dos eleitores, votam a favor da saída do Reino Unido da UE, algo nunca imaginado.

 

Apesar disso temos hoje um continente minimamente reunificado e com alguma paz, assente nos valores da solidariedade, da democracia e do Estado de direito. O seu mercado único assegura a liberdade de escolha e de circulação (apesar de alguns constrangimentos), o crescimento económico e a prosperidade para mais de 500 milhões de cidadãos. A União é o maior bloco comercial do mundo e o principal doador de ajuda ao desenvolvimento e de ajuda humanitária. Mesmo tendo em conta os problemas existentes convém não esquecer esta realidade.

É baseado nesta premissa que os dirigentes da União Europeia vão reflectir sobre os desafios presentes, o que inclui um apelo para manter a unidade a 27 e reforçar a acção comum em sectores estratégicos essenciais em benefício dos cidadãos europeus. Se fracassarem nesta missão de encontrar novos caminhos para restaurar os princípios que presidiram à formação da União Europeia, então todo o continente perderá e o futuro poderá ser mais sombrio. Esperemos que tal não se verifique.

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