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Opinião
Cada pessoa é um dom
Texto Opinião | Albino Brás | 10/04/2017 | 08:45
As notícias falsas começam a fazer parte do quotidiano e estão a transformar-se numa autêntica pandemia, com impacto e efeito global
Nas redes sociais, que tratam a realidade à flor da pele, estas notícias proliferam e alastram mais rápido que ventos ciclónicos. A maioria das vezes sem que haja a mínima preocupação em averiguar da sua veracidade ou da falta dela. Alguma imprensa entrou mesmo acriticamente nesta vertigem perigosa e populista.

Um caso clamoroso e assustador foi o que ocorreu no final do ano passado na Alemanha e que dava conta de múltiplos ataques sexuais feitos por «refugiados» a «mulheres» em Frankfurt. A notícia correu mundo, gerando indignação e um clamor popular tremendo. Pois bem, surge agora o desmentido. A polícia alemã confirmou não haver qualquer fundamento que sustentasse o então noticiado. Mas já vem tarde.

O estrago estava feito. A falsidade, proclamada aos quatro ventos, serviu para ampliar o ódio ao refugiado, ao emigrante, ao estrangeiro. E com isto procurou-se esvaziar o discurso dos que lutam e se esforçam pelo seu acolhimento e integração. De resto, terá servido também para fazer crescer os partidos de extrema direita na Europa, com seus discursos xenófobos e racistas. Pior. Como era de esperar, o desmentido não mereceu mais que uma nota de rodapé em alguns dos muitos jornais que, então, lhe deram voz. O jornal alemão Bild, que inventou e alimentou a farsa, continuará impune. Somos rápidos a alimentar a mentira e o preconceito, e lentos na hora de dizer a verdade e assumir responsabilidades. Esta falsa notícia foi um claro incentivo ao ódio, e isso é crime.

Não é indiferente a mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano, um tempo litúrgico e pastoral forte, quando nos convida a «abrir a porta do nosso coração ao outro, porque cada pessoa é um dom que merece aceitação, respeito, amor, seja ela um vizinho ou um pobre desconhecido”, e nele “reconhecer o rosto de Cristo».
E desafia à ação: «Encorajo todos os fiéis a expressar esta renovação espiritual, inclusive participando nas Campanhas de Quaresma que muitos organismos eclesiais, em várias partes do mundo, promovem para fazer crescer a cultura do encontro na única família humana», conclui, apelando à compaixão: «saibamos abrir as nossas portas ao frágil e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa».

Não há portanto como excluir o outro, normalmente pobre, fragilizado, ferido nos direitos fundamentais e, sobretudo, na sua dignidade. Cada pessoa é um dom.
Boa caminhada quaresmal.
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