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A alegria apesar da dor
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 15/04/2017 | 13:57
Antes de a sua doença lhe reduzir e lentificar os movimentos e a tornar dependente de uma cadeira de rodas elétrica que conduz com alguma dificuldade, percorria toda a região abrangida pelo serviço onde trabalhava
– Susy, enviei-te o meu artigo para a revista deste mês.
– Obrigada, Mara! Qual o tema?
– Oh, é muito simples: «Ser pais: missão de crescer». Também te enviei um link para uma revista de Educação que acaba de ser lançada e parece muito interessante.
Mara era assim: tudo o que encontrava de interesse para alguém com quem pudesse partilhar, fazia-o.

Antes de a sua doença lhe reduzir e lentificar os movimentos e a tornar dependente de uma cadeira de rodas elétrica que conduz com alguma dificuldade, percorria toda a região abrangida pelo serviço onde trabalhava. Possibilitava aos grupos de pais uma reflexão partilhada sobre a educação dos filhos e sobre as atitudes na relação em família. O programa de intervenção precoce que ela criou, foi solicitado por diversas instituições que o aplicaram com sucesso.

A este projeto, Mara dedicou todo o esforço, tempo, competências e formação continuada. Com ele, queria que o amor fosse mais visível, começando pelo lugar onde ele nasce: a família. Acredita que onde o amor existe e se faz notar, a alegria acontece e a vida renasce em cada acontecimento.

Hoje, Mara já não percorre caminhos, não se desloca a nenhum grupo de pais. Agora, conversar cansa-a e a articulação das palavras é mais lenta.
Mas não abandonou de forma alguma o seu projeto. Basta olhar para a secretária onde trabalha: os livros, revistas, artigos, estão lidos, sublinhados, em uso, porque continua à procura de respostas e de soluções para os problemas reais que foi ouvindo.

O e-mail é agora uma estrada de liberdade para Mara. Divulga tudo o que lhe parece que pode ser útil. Escreve artigos para a imprensa local e colabora com uma revista.
Porque não pára? Porque não descansa e faz outras coisas?
Talvez a resposta possa ser dada pela sua atitude de viver: quando olhamos para a Mara, podemos ver sinais de algum sofrimento, silenciado, de dor. Mas, ao cumprimentá-la, a sua expressão transforma-se em alegria, em risinhos, nascidos do prazer do encontro. Dela, não se ouve queixume ou qualquer referência à doença.

Os momentos de felicidade são vividos de forma tão intensa, que envia a dor para segundo plano, diz ela. E para ela tudo pode ser motivo de felicidade: encontrar uma pessoa amiga, ter algo para partilhar, ver alguém feliz, ouvir música, tomar café com os amigos, mas sobretudo, ver como os seus filhos crescem e superam os obstáculos!

Qual o lugar para a dor? Mara tem uma forma muito particular de ver a dor:
– a dor, é a minha companheira mais fiel. Por causa dela aprendi a «andar devagar». E como ando devagarinho, posso olhar melhor, ver melhor, sentir mais intenso, conhecer mais profundo. Como a dor veio acompanhada de tantas coisas boas, não consigo zangar-me com ela – mas ponho-a anestesiada tanto quanto posso. Gosto de vê-la a dormir! – remata Mara, rindo.
Por tudo isto, quando estamos com a Mara, a sua slegria contagia-nos e sentimo-nos mais agradecidos à vida.
Obrigada, Mara!
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