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Portugal
Devoção
«Fátima é uma expressão dessa fé popular»
Texto Leonídio Paulo Ferreira* | Foto Ana Paula | 10/04/2017 | 07:02
«A devoção a Maria é algo muito enraizado na tradição cristã. Não é um privilégio dos portugueses nem dos latino-americanos, que somos muito marianos e muito devotos de Maria»
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O venezuelano Arturo Sosa, de 68 anos, é desde outubro do ano passado Superior-geral dos jesuítas. No Vaticano, na Cúria da Companhia de Jesus, falou de Francisco (jesuíta e latino-americano como ele), da laicização da sociedade, do papel de Portugal na expansão do catolicismo e, claro, do Centenário das Aparições de Fátima

«A devoção a Maria é algo muito enraizado na tradição cristã. Não é um privilégio dos portugueses nem dos latino-americanos, que somos muito marianos e muito devotos de Maria. É que desde os começos da comunidade cristã o lugar de Maria sempre foi de grande relevo», afirma o venezuelano Arturo Sosa, Superior-Geral dos Jesuítas desde outubro, questionado sobre a importância do Centenário das Aparições de Fátima. Estamos na Cúria dos Jesuítas, no Borgo Santo Spirito, nº 4, em pleno Vaticano, a uma centena de metros da Basílica de São Pedro e o homem que nos recebe é o primeiro não-europeu a liderar a maior ordem da Igreja Católica, fundada no século XVI por Inácio de Loyola e hoje com 16.700 membros espalhados pelo mundo.

O padre Sosa é apresentado por Patrick Mulemi, jesuíta zambiano que encabeça o departamento de comunicação da Companhia de Jesus. A conversa com o Superior-Geral é em espanhol, numa sala moderna, com confortáveis sofás cor de café com leite claro. Para a entrevista formal, gravada, combinamos que as perguntas podem ser em português e as respostas em espanhol. Formado em Filosofia e doutorado em Ciência Política, Arturo Sosa está habituado a ouvir o português ou não fosse a sua Venezuela natal país vizinho do Brasil.

A conversa, que foi marcada com a ajuda dos jesuítas em Portugal, prossegue com o tema Fátima: «Maria é como a expressão de uma fé levada à sua maior radicalidade. Maria foi capaz de aceitar algo que era muito difícil de entender. A sua maternidade foi marcada por perder o seu filho. E por isso é que a comunidade cristã sempre viu Maria como a mãe da Igreja e que sempre esteve a apoiar esse processo tão difícil que é o caminho da fé», explica o padre Sosa. Para logo acrescentar, que «também a devoção mariana é uma coisa muito popular, do povo, da gente simples, é uma coisa humanamente muito intuitiva, uma espécie quase de conexão automática como faz cada um com a sua mamã. Creio que o Papa Francisco também esteve na sua história pessoal muito em contacto com a fé do povo. Que também é um dos pontos importantes da renovação da Igreja Católica na América Latina. Foi exatamente conetar-se com essa fé simples, das pessoas, popular. E Fátima é isso. Fátima é uma expressão dessa fé popular que vê em Maria um presente de Deus. E que vê em Maria a possibilidade de ser cristão, porque a própria Maria era uma pessoa do povo, uma pessoa simples, que foi capaz de compreender, e dar o que deu, às pessoas».

A referência ao Papa tem que ver com a visita marcada para maio a Portugal, para o centenário de Fátima. Arturo Sosa é amigo de Francisco desde o tempo em que este, também jesuíta, usava ainda o nome de Jorge Mario Bergoglio. Desde que substituiu em 2013 Bento XVI, o Papa argentino tem procurado dar um estilo mais caloroso à Igreja, muito latino-americano até. E isso viu-se quando se dirigiu à Cúria jesuíta, durante a reunião em outubro para eleger o novo Superior-Geral, e ficou toda uma manhã a conversar com os jesuítas. «Certamente que o Papa se converteu numa figura não só para a Igreja como para o mundo. Seguramente, será das pessoas mais escutadas. E tem duas coisas muito boas na sua mensagem: a clareza – não é preciso estar a interpretar pois diz aquilo que quer dizer – e uma linguagem que toda a gente percebe, uma linguagem muito acessível», elogia o padre Sosa o outro latino-americano que chefia a Igreja Católica.

Diz ainda sobre Francisco «que o Papa pôs na ordem do dia o drama da maior parte da humanidade, o drama da pobreza, da marginalização da periferia. Um drama que não se resolve com soluções simples, que é um problema estrutural, que tem tanto que ver com a sociedade humana como com a natureza. Deu ao discurso sobre a transformação social uma profundidade enorme, de uma forma sensível, sendo muito sensível e muito evangélico. Ele não pretende ser economista nem especialista em transformação social, senão uma pessoa que fala da sua fé e do seu coração. Uma pessoa que viveu situações muito difíceis na sua história, no seu país, e que conhece outras e as vive a partir do Evangelho. E isso é um desafio para a Igreja. Que faça uma predicação que tenha essa característica, que nasça do Evangelho, que nasça da fé, que nasça da palavra e que nasça do encontro e do reconhecimento das pessoas mais pobres».

Sobre Portugal e outros países onde o catolicismo continua a ser a grande religião mas onde a laicização da sociedade avança a passos largos, o Superior-Geral dos jesuítas, nascido em 1948 em Caracas, tem uma visão otimista: «Vejo-a como um sinal dos tempos. É um processo que não serve de nada condenar ou deixar de condenar – é uma realidade – e que nos impõe vários desafios. E o primeiro é compreender o processo, no que é que consiste, quais são as suas raízes, quais são as suas desvantagens e vantagens, pois também tem vantagens. E o segundo é aquilo que João Paulo II chamou a nova evangelização. Há que encontrar a maneira de anunciar o Evangelho nesta sociedade. Entre as vantagens que eu vejo neste processo está que aquele que assume o seu cristianismo ou o seu catolicismo o faz com muito mais consciência e com muito mais liberdade. O facto é que a laicização levou a que já não se aceite ser religioso por pressão. Na sociedade, praticamente até ao século XIX, não era possível não ser religioso – fazê-lo era procurar marginalizar-se socialmente. Faltava algo muito importante: a escolha livre da fé». Interrompo para perguntar se então há hoje menos cristãos mas muito mais convictos? E a resposta do padre Sosa é imediata: «Sim, e aí estão os números. Porque antes toda a gente era cristã. Agora há um processo, uma decisão pessoal, um eu quero ser, e isso também é um desafio. Propor o cristianismo como uma escolha, uma fé que a pessoa aceita livremente. E esta laicização não acontece só nas sociedades tradicionalmente cristãs, acontece por todo o lado, nas sociedades muçulmanas também».

A conversa dura quase uma hora. Muitos outros temas são abordados, desde os refugiados e a importância da educação para os jesuítas passando pela crise política e social na Venezuela. Mas uma frase merece destaque aqui, pois tem que ver com Portugal e a própria origem da Companhia de Jesus: «Simão Rodrigues, famoso companheiro de Santo Inácio, foi quem mais ajudou a configurar esta Companhia. Portugal foi a primeira província da Companhia. E foram os portugueses que criaram a primeira estrutura de governo dentro da Companhia, pois tinha a sua autonomia. E depois os portugueses foram os grandes missionários, na Índia, na América Latina, no Brasil. E também a presença dos jesuítas no Japão. E isso teve que ver com o papel de Portugal no mundo. Também de outros mediterrânicos, de Espanha, Itália e França. Mas os portugueses eram os grandes navegadores. Presentes em todo o mundo. E, portanto, os jesuítas eram parte dessa cultura de um país que, embora pequeno, foi capaz de partir para todo o mundo».

* jornalista do DN
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