+ infoAcontecer
Mundo
Francisco a caminho da Ásia muçulmana e budista
Texto Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN | Foto Lusa | 13/11/2017 | 07:02
Em Daca, onde deverá ser recebido a 30 de novembro pela xeque Hasina, Francisco vai deparar-se com um país que tradicionalmente tem procurado seguir um Islão moderado, mas que nos últimos tempos assiste a uma renovada força do fundamentalismo islâmico
imagem
Em finais de novembro e inícios de dezembro, o Papa estará no Bangladesh e na Birmânia. São terrenos difíceis para o cristianismo, ultraminoritário naqueles países, mas a atenção do Papa até pode ter de ser dedicada aos rohingya, etnia muçulmana perseguida pelos budistas birmaneses. Menos tensa foi a visita em setembro à Colômbia, bastião católico, que celebra o fim da guerra civil

Depois de Portugal em maio, veio a Colômbia em setembro e a seguir o Bangladesh e a Birmânia em finais de novembro e inícios de dezembro. Francisco terminará este ano, o quinto do seu pontificado, com 30 países visitados, de todos os continentes exceto a Oceânia. Se olharmos para um mapa do mundo com as regiões onde já esteve este Papa, a Europa sobressai, claro, mas também as Américas e um pouco o Médio Oriente. A África Negra e o Extremo-Oriente, por seu lado, receberam já Francisco algumas vezes, mas muitos países esperam ainda uma oportunidade para também acolherem o chefe da Igreja Católica, o que deverá acontecer, em breve, ao Bangladesh e à Birmânia (também chamada de Myanmar), curiosamente dois países sem grande tradição cristã, um deles muçulmano, o outro budista.

Francisco deslocou-se à Colômbia entre 6 e 10 de setembro, naquela que foi a sua quarta visita à América Latina, onde esteve já em sete países. É sempre um terreno fácil para este Papa sul-americano, argentino filho de imigrantes italianos e que foi batizado como Jorge Mario Bergoglio, jesuíta que chegou a ser bispo de Buenos Aires. Aos colombianos, Francisco falou da importância da paz, um bem recém--reconquistado no país, depois de décadas de violência entre as forças do governo de Bogotá e a guerrilha marxista das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Vítimas do conflito estiveram entre as pessoas com quem o Papa conversou, tendo também se encontrado com o Presidente Juan Manuel Santos e lido uma mensagem de Rodrigo Londono, o antigo líder guerrilheiro também conhecido como Timochenko, onde pede perdão mas tenta justificar a luta armada. Da vizinha Venezuela veio para cumprimentá-lo o cardeal Jorge Urosa, arcebispo de Caracas, um homem que em tempos chamou ditador ao Presidente Nicolás Maduro. Abraços, isso sim, para Santos, o líder colombiano que negociou a paz em vez de a tentar pela força das armas e acabou por ganhar o Prémio Nobel, com aplausos até de políticos estrangeiros, pelo fim da mais antiga guerra civil das Américas.

Além das FARC, outra guerrilha aderiu ao processo de paz, mas com reticências: o ELN (Exército de Libertação Nacional), que fala apenas de tréguas, não do abandono da luta armada. Francisco agradeceu ao ELN o seu esforço no sentido da paz – um incentivo para que ultrapassem as dúvidas e desistam mesmo da guerrilha.

«Um povo nobre não tem medo de se expressar e de mostrar aquilo que sente», declarou o Papa aos jornalistas vaticanistas, na habitual conversa a bordo do avião, já na hora do regresso a Roma. As palavras de Francisco eram um elogio ao povo colombiano, pois por muita que seja a vontade dos políticos ou a influência moderadora da ONU «existe a força do povo», que «é uma vontade expontânea» e mostra haver «vontade de seguir em frente neste processo que vai além das negociações».

Com 50 milhões de habitantes, na sua esmagadora maioria cristãos, a Colômbia distingue-se nas estatísticas de crentes do Vaticano: é o segundo país de língua espanhola com mais católicos só atrás do México, o terceiro na América Latina (depois de México e Brasil) e o sétimo a nível mundial (lista liderada pelo Brasil, com México e Filipinas também no trio da frente). A Colômbia tem até já mais  católicos do que a Espanha, que até ao início do século XIX e da revolta liderada por Símon Bolívar era a potência colonizadora. Francisco beatificou ainda dois mártires colombianos, numa Missa celebrada perante milhares de pessoas onde fez um apelo à reconciliação.

Ora, da mui católica Colômbia, o Papa segue agora para a Ásia. Mas não para uma Ásia como a Coreia do Sul ou as Filipinas, que já visitou e onde a pujança do catolicismo é visível, mas sim para uma Ásia de maioria muçulmana, como o Bangladesh, ou budista, caso da Birmânia.
Os números são pouco fiáveis, mas calcula-se que entre os 163 milhões de bangladeshis menos de um por cento sejam cristãos, e isto incluindo católicos e protestantes. A principal minoria religiosa deste país que já foi o Paquistão Oriental e se tornou independente em 1971 são os hindus com 10 por cento.

Em Daca, onde deverá ser recebido a 30 de novembro pela xeque Hasina, Francisco vai deparar-se com um país que tradicionalmente tem procurado seguir um Islão moderado, mas que nos últimos tempos assiste a uma renovada força do fundamentalismo islâmico, até com atentados terroristas a tudo que pareça sinais de ocidentalização, de cafés a igrejas. O Estado Islâmico até reivindicou o assassínio de um pastor protestante, um muçulmano convertido. Fala-se aliás de uma recente vaga de conversões ao cristianismo no Bangladesh, fenómeno que traz retaliações pois a maioria muçulmana vê a troca de fé como apostasia e os mais extremistas consideram tal um crime punível com a morte.

A primeira-ministra, filha do pai da independência, tem hesitado entre manter o perfil laico do Estado e um compromisso com a linha dura do Islão. Vigilante está o arcebispo de Daca, o cardeal Patrick D’Rozario, que como é hábito entre os católicos na Índia, no Paquistão, no Bangladesh e no Sri Lanka tem um nome português, vestígio da forte missionação portuguesa nos séculos XVI e XVII. O seu antecessor era Paulinus Costa.

Há grande expectativa sobre a visita e a mensagem que Francisco trará ao Bangladesh de 30 de novembro a 2 dezembro, até porque antes o Papa visitará a 27 de novembro a Birmânia, país vizinho, de maioria budista, que nos tempos recentes tem sido palco de grave violência contra os rohingya, uma etnia muçulmana. Como os rohingya são aparentados aos bangladeshis e vivem na zona fronteiriça, são vistos na Birmânia como estrangeiros chegados nos tempos coloniais e não pertencem à centena de etnias nacionais reconhecidas. O Bangladesh tem acolhido milhares de refugiados rohingya, aqueles que fogem por terra.

No caso da visita à Birmânia, Francisco entra mesmo em terreno desconhecido. Ao contrário do Bangladesh, onde João Paulo II esteve em 1986, nunca um Papa visitou aquela antiga colónia britânica tornada independente em 1948 e cujos primeiros contactos com o cristianismo foram há 500 anos através dos jesuítas portugueses.
Os generais continuam a mandar nos bastidores, mas o poder agora está nas mãos dos civis e Aung San Suu Kyi, líder pró-democracia, só não é a Presidente porque um artigo na Constituição, escrito a pensar nela, veda o cargo a quem tenha marido ou filhos com passaportes estrangeiros.

Suu Kyi, que é Nobel da Paz e figura muito respeitada por ter passado duas décadas em prisão domiciliária por desafiar a junta militar, é agora acusada de nada fazer para defender os rohingya, atacados pela maioria budista e também pelo exército depois de um grupo deles ter respondido com violência também. Mas é um equilíbrio difícil este que Suu Kyi tem de manter, pois os generais são influentes e o nacionalismo birmanês, associado à religião budista é fortíssimo. Francisco, aliás, terá também que fazer a defesa dos interesses dos cristãos, cerca de seis por cento dos 51 milhões de habitantes.

O cristianismo, o catolicismo, mas também protestantismo, é muito forte em algumas minorias étnicas, como os chin, os kachin e os karen, que no passado lutaram contra o poder central por maior autonomia e sempre contaram com Suu Kyi como defensora de uma Birmânia federal. Será interessante a conversa que o Papa deverá ter com a mulher forte do país durante a sua visita, pois por várias vezes o Papa já criticou a discriminação dos muçulmanos.
Qual é a sua opinião?
Login
Email: Palavra-chave:
Esqueceu-se da sua palavra chave?
Registar
Comentário sujeito a aprovação.