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São todos cegos?
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 26/11/2017 | 13:16
Talvez um dia, a felicidade que Natália sente em ajudar, contagie e amplie o grupo dos que fazem questão de ver, de chegar-se próximo e de fazer a diferença
Natália chegou ofegante à paragem. Não gostava de perder o autocarro das 19h00 para não preocupar a Luísa, a pessoa mais maravilhosa que conhecera. Quando a sua mãe teve de ser internada com um surto psicótico, fora confiada a esta senhora, pelo tribunal, como medida de proteção.

Natália lembra-se bem do primeiro dia em que entrou na casa de Luísa, acompanhada pela doutora Dina. Aguardava-as uma mulher robusta e ar decidido, de olhos grandes a procurarem os seus. Os de Natália buscaram o chão, tristes, assustados, perdidos. Aquela senhora percebeu o seu silêncio e não a forçou. Passou suavemente a sua mão na cabeça de Natália e disse-lhe baixinho:
– Temos todo o tempo do mundo para nos conhecermos. Sê bem-vinda a esta casa. A partir de agora é também a tua casa enquanto precisares.
A voz desta senhora era doce, quente. Parecia feita de música. E riso. Atrás dela, a espreitar curiosa, uma outra senhora mais velha: a  Conceição. Também vivia ali. Numa cadeira de baloiço, seguro por cintos, um rapaz que deveria ter uns 18 anos, mostrava ter alguma deficiência. Gesticulava e dava gritinhos de alegria. Era o Manuel.

Este fora o primeiro dia. Passaram-se dois anos. Hoje, Natália não é já uma menina assustada. Nem sequer sente necessidade de riscar as paredes da escola nem de descarregar a sua tristeza nas miúdas mais indefesas, nos intervalos das aulas. A Luísa ensinou-lhe a descobrir a felicidade e a vencer o medo. Até lhe ensinou o segredo da sua alegria de viver:
– Ajudar alguém a ser feliz, dá força e alegria a quem ajuda e a quem recebe – dizia ela.

O Manuel foi ajuda preciosa para Natália. Bastava ela fazer um miminho para ele reagir com tanta alegria que derrubava as dúvidas de Natália sobre o valor de si mesma. E a Conceição, que a Luísa acolhera por estar com demência e não ter ninguém que cuidasse dela, olhava para Natália como a sua boneca que gostava de afagar e de admirar. Com eles Natália aprendeu o gosto de cuidar e de ser cuidada: ganhou uma família.

Hoje, quando Natália chegou à paragem uma velhinha tentava subir os degraus do autocarro sem muito sucesso. Natália ofereceu-lhe o braço e ajudou-a a subir, com o olhar impaciente do motorista e dos passageiros fixos em si. Vencidas as escadas, o motorista preparava-se para retomar viagem. Natália deu-lhe um grito zangado.
– Oh senhor, você não vê que esta senhora ainda está de pé?
Vendo todos os lugares ocupados sem que alguém se tivesse levantado, Natália desafiou a todos:
– Estão todos cegos? Esta senhora precisa de sentar-se. É muito difícil de ver?
Um jovem levantou-se e deu o lugar à senhora idosa. Outro homem tentou oferecer o seu lugar a Natália, que recusou, ainda zangada. Sentia uma revolta que nascia do seu inconformismo perante a indiferença.

«Que contradições!», pensava. «De um lado a Luísa que acolhe na sua casa e na sua vida quem precisa de cuidados, enquanto dela necessitarem. Do outro, gente instalada, alheia a quem passa, a quem chega ou a quem chama. Sem quererem ver, ouvir ou saber». Natália já esteve dos dois lados. Sente a alegria de pertencer ao lado dos que cuidam. Não quer nunca mais estar do outro lado. Talvez um dia, a felicidade que sente em ajudar contagie e amplie o grupo dos que fazem questão de ver, de chegar-se próximo e de fazer a diferença.
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