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Opinião
Editorial
O pulmão de Francisco
Texto Opinião | Albino Brás | 13/03/2018 | 15:26
Este é o Papa que declara tolerância zero aos abusos sexuais na Igreja; que exige transparência no Banco do Vaticano; que denuncia a corrupção e a «economia que mata»; que desafia bispos e padres a saírem das sacristias e a «cheirarem a ovelha»
O Papa Francisco é atualmente a figura mais relevante, influente e popular do planeta. Um feito alcançado em apenas cinco anos de pontificado (13 de março 2013). Quando Bergoglio assumiu o governo da Igreja encontrou uma instituição com problemas gravíssimos. Ou os escondia debaixo do tapete, adiando decisões (acusam João Paulo II e Bento XVI de inação), ou ousava vias de solução. Preferiu agir, e em várias frentes, algumas dolorosas, que continuam a provocar fortes resistências, a começar pelos membros da própria Cúria Romana. Ninguém lhe fica indiferente.

Este é o Papa que declara tolerância zero aos abusos sexuais na Igreja; que exige transparência no Banco do Vaticano; que denuncia a corrupção e a «economia que mata»; que desafia bispos e padres a saírem das sacristias e a «cheirarem a ovelha», promovendo uma «Igreja em saída», mais missionária. Um Papa que escolhe a simplicidade, renunciando à pompa dos palácios pontifícios; que prefere as periferias; que proclama o Ano da Misericórdia, porque «o nome de Deus é misericórdia».

Entre outros documentos, Francisco assina uma exortação apostólica que nos desafia a vivermos na alegria do Evangelho («O Evangelho da Alegria»); uma encíclica («Louvado Sejas») que apela a assumirmos que habitamos um mesmo planeta, a «casa comum», da qual devemos cuidar; uma exortação sobre a família («Alegria do Amor») que convoca a Igreja ao discernimento, mais além das meras proibições.

A vida e a sociedade mudam, hoje, a velocidades nunca vistas. A Igreja Católica nem sempre sabe acompanhar essas mudanças. Muitas das vezes resiste-lhe, fincando os pés no passado, na tradição, no ritual e no latim, no «sempre foi assim». É uma instituição bimilenária, com uma estrutura pesada, onde reformas profundas se impõem. A primavera está em marcha e ninguém a poderá deter. Este Papa prioriza a ternura e a misericórdia do Evangelho à rigidez da doutrina.

«A mensagem de Jesus é incómoda e nos incomoda, porque desafia o poder religioso mundano e mexe com as consciências», escreveu Francisco, recentemente, no Twitter. A Francisco, que só tem um pulmão, agradecemos os gestos e as palavras que enchem de ar fresco os pulmões da Igreja e do mundo. Em tempos tão conturbados, convenhamos, é um pulmão que nos tem ajudado a respirar.
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