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Opinião
Um fio de luz
Texto Opinião | Carlos Andrade Costa* | 22/04/2018 | 11:32
São cada vez mais recorrentes as notícias sobre a fragilidade física do Papa emérito Bento XVI. A sua idade avançada e a fragilidade da sua saúde têm vindo a suscitar, em todos, a consciência de uma inevitabilidade
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Sou um convertido tardio a Bento XVI. Lembro-me perfeitamente de um certo desapontamento no preciso momento em que foi anunciado ao mundo a sua eleição na tarde daquele dia 19 de abril de 2005. A meio da tarde praticamente todos aqueles que trabalhavam comigo no Ministério dos Negócios Estrangeiros estavam acotovelados no meu gabinete, pois era a única televisão existente nas proximidades. Ao saber da escolha dos senhores cardeais desinteressei-me do assunto e fui aos meus afazeres. Desiludido.

Boa parte da minha adolescência e início da idade adulta vivi repetidamente antagonizado com muitas das posições e com muitos dos ensinamentos do então cardeal Joseph Aloisius Ratzinger. Já numa fase posterior esta antagonia interior avivou-se com a leitura e releituras sucessivas do livro, ou partes deste, «O sal da terra». Livro-entrevista onde por vezes me apetecia gritar ao jornalista Peter Seewald que formulasse a pergunta de outra forma. Mais direta. Mais incisiva. Menos submissa. E dessa forma encontrar um hipotético caminho para uma resposta menos dogmática. Menos professoral. Mais plural.

Os primeiros anos do curto pontificado de Bento XVI vivi-os muito desatento ao Papa. Mudei por completo com o discurso que ele proferiu – o célebre discurso – que ele proferiu, repito, na universidade alemã de Ratisbona em setembro de 2006, seguido da visita que fez à Turquia em novembro e com o conteúdo dos discursos que então proferiu. A partir daí e de forma retrospetiva dei-me conta da riqueza que aquele Papa era para a Igreja de Cristo.

Hoje sou um admirador confesso de Bento XVI e reli, com outros olhos, com outra atenção e com outra humildade, o então cardeal Joseph Ratzinger. Mesmo numa visão paroquial – mas importante para mim como português – tenho plena consciência que Bento XVI foi porventura o Papa mais amigo e fraterno com a Igreja portuguesa. O que aconteceu em Roma e em Portugal com sacerdotes e outros responsáveis portugueses não tem paralelo nos últimos séculos. Apenas um exemplo. Ou dois.

A nomeação em 2012 do então sacerdote José Avelino Bettencourt para chefe do protocolo do Vaticano. Agora, há dias, elevado a arcebispo pelo Papa Francisco e nomeado núncio apostólico (embaixador) na Arménia e Geórgia. Um posto diplomático bastante mais importante do que parece. Antes, apenas um português havia sido núncio apostólico, o hoje cardeal Manuel Monteiro de Castro. Que também Bento XVI colocou como seu embaixador no muito relevante posto de Madrid e numa altura muito delicada no seio da Conferência Episcopal Espanhola.

Depois, o ainda Bento XVI não o deixou ir para a reforma. Fê-lo cardeal e desta forma voltou a distinguir Portugal e a Igreja portuguesa. Dúvidas? Não, os exemplos podem ser tantos. Talvez a Igreja portuguesa nunca tenha sido tão honrada por um Papa como o foi por Bento XVI. O gesto de resignar voltou a colocá-lo no centro das expectativas mundiais.

Eu, como quase todos, fiquei incrédulo naquela manhã de fevereiro. E no dia 28 de fevereiro de 2013, às 18h00, estava numa pequena multidão que se reuniu na Sé da cidade do Mindelo – Cabo Verde – em oração, no preciso momento em que em Roma, às 20h00, Bento XVI terminava o seu Papado. Presidia a esta oração um homem – Ildo Fortes – que havia sido nomeado bispo da diocese do Mindelo há não muito tempo. Um bispo com tão profundas ligações a Portugal, onde viveu, onde estudou, onde se ordenou padre e assumiu diversas funções e paróquias.

Apenas estive uma vez com Bento XVI, na Sala Clementina, no Vaticano. Presente, também, o então ministro da Saúde, Paulo Macedo. Bento XVI falou-nos, a todos, da compaixão. Da compaixão ao servirmos como profissionais de saúde. Estavam ali profissionais de saúde dos cinco continentes. Crentes e não crentes. E no fim, quando Bento XVI terminou o seu discurso, a sala inteira ficou em silêncio, imóvel, impressionada. Apenas e naqueles segundos imediatos o protocolo imprimiu movimento. Alguma dinâmica.

Hoje, confrontados com este fio de luz que parece ir extinguindo-se tenho consciência que no dia em que o Papa emérito nos deixar eu serei daqueles que sentirá uma enorme tristeza. Sentindo que Deus ficou menos presente no meio de todos nós e por isso teremos que nos renovar na capacidade de redescobrir as vozes do tempo e encontrar novas forças para caminharmos mais sós.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Médio Tejo
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