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Opinião
Tudo em ordem
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 25/04/2018 | 09:28
«Entre os tratamentos e os avanços e recuos da doença, foi preparando a sua saída, de levezinho, serenamente. Aproveitar ao máximo cada momento, tornou-se a sua marca pessoal»
Eram 12h35 do dia 4 de fevereiro. Terminou! Carlota terminou a essa hora a sua missão no planeta Terra. Parou, mas as suas ações ainda preenchem, são lição que ensina.
Tinha só 29 anos. Os sonhos nunca lhe faltaram nem tão pouco energia para os concretizar, sempre pronta para alguma boa causa.
A doença chegou e impôs-lhe limites inesperados. Revolta, foi a única resposta que conseguiu. Como se atrevera a doença a barrar-lhe os caminhos, a ela, no tempo que era dela, roubando-lhe a liberdade e a esperança com que desenhava os sonhos?
Mas o tempo passou e Carlota foi entendendo. E porque compreendeu, aceitou e foi integrando este outro projeto que não escolhera, mas que tornou seu.
Se assim teria de ser, faria com ele algo de valioso, digno da vida. Foi o que fez.
Entre os tratamentos e os avanços e recuos da doença, foi preparando a sua saída, de levezinho, serenamente.
Aproveitar ao máximo cada momento, tornou-se a sua marca pessoal. Não pediu atenção. Queria só que aceitassem o seu obrigado. Começava pela mãe: agradecia-lhe tanto! Às vezes ela já não se apercebia da presença de Carlota: o Alzheimer chegou cedo à vida da mãe. Ao pai, encontraria brevemente no outro local para onde iria…  Projetara cuidar da sua mãe, mas a vida não lho permitiria. Asseguraria que ficariam substitutos capazes de dar à mulher mais fantástica que conhecera, tudo o que ela precisasse para estar bem.
Sabendo que o seu tempo estava a terminar, Carlota organizou um almoço de encontro de amigos. Era o seu «adeus» que só ela sabia sê-lo. Queria-o feito de abraços, de gargalhadas, de recordações gostosas de quem viveu uma vida a sorrir aos dias.
Depois, foi o tempo de dividir o que já não era seu, porque já se despegara de tudo: o carro que não conduziria: os livros que alguém poderia ler; as roupas que poderiam aquecer e embelezar, … distribuía, distribuía, e cada doação transformava-se em balão de oxigénio que lhe enchia a alma, deixando-a solta, leve!
Faltava o Dia D, o dia em que fazia questão de participar. Seria inesquecível, este aniversário da mãe. Talvez nesse dia ela conseguisse ter aqueles momentos de lucidez. E se os tivesse, talvez os guardasse tão b em que a manteria a ela, Carlota, presente na sua recordação, sempre.
Carlota preparou tudo. Na lista de convidados, estavam todos aqueles que a mãe gostaria de ter consigo. Para cada um, criou um presente personalizado, traduzindo o que sabia ser o sentir da mãe, antes, quando ainda era claro o seu sentir.
Estava tudo pronto. O seu espírito estava liberto.
Os convidados chegaram. Os afetos dirigidos à mãe redobraram a certeza de que ela ficaria bem. Agora, sim, estava mesmo tudo pronto. Podia fazer-se a festa – e fez-se!
Mais abraços, mais um fôlego de vida, aproveitada até o último pingo de néctar.
No final, uma surpresa, mas desta vez, era Carlota a surpreendida: os amigos do Jazz queriam cantar com ela mais uma vez. As vozes juntaram-se, numa quase oração de «até sempre», perpetuando aquela melodia que ecoaria entre mundos.
O dia seguinte chegou, e o seguinte. Neste dia, Carlota, com tudo em ordem, partiu para junto do seu pai.
Atrás de si, deixou, a tocar, a música de quem sabe viver a vida com tudo o que ela nos oferece e com tudo o que nela conseguimos criar, mas sobretudo, com tudo aquilo que conseguimos amar.
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