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Em memória do padre Artur Marques
Texto Opinião | Diamantino Antunes | Foto Rui Antunes | 02/07/2018 | 12:14
O padre Artur era um homem de uma fé simples e profunda. Fiel à oração diária, um contemplativo na ação. Tinha forte sensibilidade pastoral. Sempre disponível para visitar e acompanhar as comunidades cristãs e nelas lançar a Palavra de Deus
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O padre Artur Marques foi um vivo retrato de trabalho, caridade e fé. O Instituto dos Missionários da Consolata, de modo particular em Moçambique, e todos os que com ele conviveram perderam um grande missionário que, em Inhambane, Nampula e Maputo, foi e continua a ser uma referência.

Partiu para Moçambique em 1965 e foi neste país que viveu toda a sua vida missionária, 52 anos, dando o melhor de si ao serviço da missão as dioceses de Inhambane, Nampula e Maputo. No passado dia 22 de janeiro, próximo de Quissico, província de Inhambane, o carro onde viajava teve um acidente e ele ficou ferido. Depois dos primeiros socorros no hospital de Inhambane, foi transferido para o Hospital Central de Maputo e depois para Portugal, ficando internado no Hospital Santa Maria, em Lisboa onde lentamente vinha convalescendo. A notícia da sua morte no passado sábado, 30 de junho, acolheu todos de surpresa. A obra por ele deixada, porém, permanece. Em tudo este missionário amou e serviu.

Um homem de fé
O padre Artur era um homem de uma fé simples e profunda. Fiel à oração diária, um contemplativo na ação. Tinha forte sensibilidade pastoral. Sempre disponível para visitar e acompanhar as comunidades cristãs e nelas lançar a Palavra de Deus. Foi heroico durante a guerra civil em Moçambique (1982-1992), sobretudo nos longos anos em que foi pároco na missão de Massinga e enfrentava todos os riscos (ataques e minas anti-carro) para celebrar a Missa nas comunidades. Não olhava aos perigos. Não tinha medo da morte.

Foi ainda nesses anos que compôs o catecismo em língua xitshwa “Nza Kholwa Hosi” para a catequese dos adultos, seguindo as etapas do catecumenado. Uma obra doutrinal e pastoral, ainda hoje válida e usada na diocese de Inhambane para a catequese de preparação ao batismo, eucaristia e crisma.

Formador de sacerdotes

Em 1988, o arcebispo de Nampula pede aos Missionários da Consolata que assumam a direção do Seminário Inter-Diocesano de Nampula. O padre Artur, embora trabalhasse no sul de Moçambique, foi escolhido, dadas as suas qualidades humanas e espirituais, para dirigir este seminário no norte de Moçambique, que teve que reinventar. A primeira tarefa foi a reabilitação dos edifícios do antigo seminário que tinha sido nacionalizado pelo governo e restituído em péssimas condições. Um trabalho que realizou com competência e perfeição num tempo em que escasseava tudo.

Durante 10 anos orientou o seminário, formando mais com o seu exemplo do que com palavras centenas de seminaristas, muitos dos quais hoje são sacerdotes e desempenham tarefas de responsabilidade a nível nacional ou nas suas dioceses de origem. Para o padre Artur, o trabalho manual, juntamente com o apostolado e os compromissos da vida religiosa, eram parte integrante do seu dia a dia. O trabalho organizado e feito com perfeição foi um aspeto educativo que marcou a sua ação evangelizadora nas missões onde trabalhou. Era competente na orientação das obras, e muito construiu. Sabia ser exigente e ao mesmo tempo amigo dos muito trabalhadores que orientou e formou, de modo particular na Salina de Batanhe, na Missão de Nova Mambone.

A última missão

A sua ação na sua última missão – Nova Mambone - é um exemplo da sua maneira de ser e de estar. Aqui trabalhou no vigor da suas forças, entre 1976 e 1982, e no final da sua vida. A ação pastoral foi sempre uma prioridade que manteve com dedicação e empenho apesar dos seus 80 anos, continuava a sair por vários dias, para visitar as comunidades longínquas, acampando no mato, sem olhar ao conforto ou às suas limitações físicas, sendo presença de Deus junto dos que nada têm. O trabalho que desenvolveu na salina foi notável. Foi responsável pelo planeamento da sua ampliação, que gizou meticulosamente, assegurando-se também da parte técnica e mecânica, necessárias ao seu bom funcionamento, conseguindo que a salina aumentasse a produção em 50 por cento. Ao mesmo tempo abriu-se à novidade e soube acolher novas ideias. A ele se deve a extração da flor de sal, graças ao estudo metódico, às experiências, à calma ponderada com que dava cada passo. Assim o fez nas outras atividades, com a discrição e a sabedoria dos que não procuram o protagonismo.

Missionário exemplar

O padre Artur é para nós, missionários da Consolata em Moçambique, um exemplo e uma inspiração. Era o missionário com mais anos de presença e serviço neste país que amava e onde é reconhecido e estimado. Pela sua experiência de vida, amabilidade e disponibilidade incarnava o modelo do sacerdote-missionário que o fundador dos missionários da Consolata, o beato José Allamano, desejava: «o sacerdote é sobretudo o homem da caridade; ele é padre mais para os outros do que para si mesmo». Durante a sua vida missionária inspirou-se nesta regra de vida e incarnou-a na sua acção. Fez o bem, bem feito.

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