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Venezuela: um país anestesiado
Texto Jaime C. Patias | Foto DR | 08/08/2018 | 17:28
A corrupção e a escassez de produtos de primeira necessidade afetam a população que já sofre com a falta de eletricidade, água, gás, transportes, medicação e serviços públicos
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«Queria oferecer um café, mas hoje não tenho nada». O desabafo é de uma mãe ao receber visita em sua casa na região de Barlovento, Estado de Miranda, na Venezuela. A situação económica, política e social do país é tão complicada que fica difícil entender. Com amplos poderes, o governo de Nicolás Maduro, seguindo o seu mentor, Hugo Chávez, controla todas as instituições e impõe sua ideologia. Talvez por isso existem pessoas que ainda defendem a Revolução Bolivariana. Crescem porém, as críticas, não apenas da oposição, mas também em setores da esquerda e entre a população em geral que mais sofre as consequências de uma gestão económica desastrosa.

«Não existe perspetiva para o futuro e o mais triste é que o povo está a acostumar-se a viver mal. A Venezuela é um país anestesiado por um conformismo generalizado». Essa análise de monsenhor Adan Ramirez, Chanceler da Cúria em Caracas, revela o estado geral de ânimo. Existem pessoas esperançadas numa mudança a curto prazo, mas falta um líder para canalizar essa esperança num projeto alternativo. A última manifestação da população foi entre maio e julho de 2017 quando forças militares reprimiram com violência prendendo mais de 300. Outros 115 manifestantes foram mortos.

A situação já precária vem piorando com muita rapidez. Embora o país tenha grandes reservas de petróleo a hiperinflação tornou a economia inviável. Para se ter uma ideia, o salário mínimo é de três milhões de bolívares (equivalente a menos de um euro), mas, com o vale alimentação, o valor sobe para cinco milhões de bolívares. Porém, um quilo de frango custa quatro milhões; um quilo de carne oito milhões; 225 gramas de leite em pó 2,8 milhões. Por outro lado, um litro de gasolina comum custa apenas um bolívar. Para adquirir uma cesta básica são necessários 620 salários mínimos. A cada dois ou três meses, o governo oferece às famílias cadastradas uma bolsa de alimentação, que inclui dois quilos de arroz, dois quilos de massa ou açúcar, três quilos de farinha e um litro de azeite.

A corrupção e a escassez de produtos de primeira necessidade afetam a população que já sofre com a falta de eletricidade, água, gás, transportes, medicação e serviços públicos. Sem perspetiva de emprego, milhões de venezuelanos emigraram, especialmente os jovens e profissionais. Quase todas as famílias têm alguém no exterior. Muitos pais partem deixando as crianças com os avós ou tios.

Para o cardeal Baltazar Porras Cardozo, arcebispo de Mérida e administrador apostólico de Caracas, o país está sem forças para reagir. «Os partidos da oposição estão inabilitados, os principais líderes estão presos ou tiveram que fugir para o exterior. As instituições são controladas pelo governo que também domina a economia. O medo é grande, sobretudo entre a juventude que anda desiludida», afirma o purpurado, destacando o desafio para a Igreja: «reanimar a esperança e a fé do povo para acreditar numa saída, além de lidar com o ódio das pessoas fruto da polarização acentuada».

A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas esse é o único motor da economia, representando mais de 95 por cento das receitas de exportação. Em 2014, o barril de petróleo era negociado a 115 dólares. Hoje, está avaliado em 70 dólares o barril, depois de cair a 26 dólares em 2016. O governo de Maduro acusa «a burguesia» de montar uma estrutura económica que não favorece o desenvolvimento. Outro inimigo sempre citado nas explicações do Presidente são os Estados Unidos da América, que interferem para desestabilizar.

O IMC na Venezuela
Na Venezuela trabalham atualmente 13 padres do Instituto Missionário Consolata (IMC) em Barlovento (Panaquire, El Clavo, Tapipa), na arquidiocese e cidade de Barquisimeto, com um Centro de Animação Missionária, no Vicariato de Tucupita entre os indígenas Warao (Tucupita e Nabasanuka), e em Caracas, sede da delegação, com o Seminário Propedêutico e Filosófico e a Paróquia de Carapita, na periferia. Além de ir ao encontro das necessidades materiais, os missionários preocupam-se em manter viva a esperança do povo sendo presença de consolação espiritual.

Os padres quenianos, Charles Gachara Munyu e Silvanus Ngugi Omuono, pastoreiam três paróquias em Barlovento, na diocese de Guarenas, região a 100 quilómetros de Caracas, controlada por grupos armados que operam com impunidade, conhecidos por «hampa». Os padres explicam que para visitar as 36 pequenas comunidades precisam avisar os chefes do grupo para não correrem riscos. A estrada nacional que dá acesso a Tapipa, Panaquire, e El Clavo, também é controlada. «Com frequência somos parados pelos `malandros´ (como são chamados os rapazes) que ameaçam e levam os pertences de valor», conta o padre Silvanus. Ele já teve uma arma apontada à cabeça quatro vezes - uma delas estava com o bispo. «Pensei em deixar o país, mas não vim aqui para a minha segurança. Acredito que foi Deus quem me enviou e por isso Ele vai me proteger. Vendo a situação do povo e sentindo que apreciam a nossa presença ganho coragem para seguir», testemunha o sacerdote. Na diocese de Guarenas existem cinco paróquias sem padres e os missionários da Consolata, que já cuidam de três, estudam a possibilidade de assumir uma quarta paróquia em Caucagua a 15 quilómetros de Tapipa.

Pastoral Afro
Em Barlovento a população é afro-americana. «Após mais de 30 anos de presença podemos enfatizar o específico: a Pastoral Afro. É necessário criar consciência de que ser afro tem seu valor e integrar isso na vivência da fé cristã com incidência na sociedade, na política, educação e saúde», destaca o padre Charles, que é mestre em Teologia Bíblica. «Esse é um processo lento, mas é preciso fazer aliança com outras organizações para conseguir os direitos. Por muitos anos, a Igreja não reconheceu a identidade afro do povo afirmando que todos eram venezuelanos. A nossa presença é sinal de esperança, mas ainda temos que trabalhar as resistências», observa o sacerdote, no país desde 2002.

Os missionários não pensam somente nos sacramentos. «Não importa se vamos celebrar missas ou apenas fazer uma visita. O facto de passarmos para que nos vejam já é suficiente para dizer que não estão sozinhos. O povo valoriza muito a amizade», complementa o padre Charles.
Eduin Ruiz, um dos coordenadores da Pastoral Afro, explica que «o objetivo é resgatar a identidade e os valores da cultura que ao longo da história foram negados. Para isso é preciso trabalhar a inculturação do Evangelho».

O padre Silvanus recorda um pequeno exemplo, mas de forte poder simbólico: «O mesmo toque do sino que no passado era utilizado para avisar a fuga de um escravo, não serve hoje para convidar o povo negro a participar das celebrações». O sino continua na torre da Igreja, mas passaram a usar a música.

A terra é rica em produção de cacau, que seria um potencial económico para as famílias não fosse a imposição de preços baixos por parte do governo tornando inviável o comércio. «A qualidade da educação está a deteriorar-se, muitas escolas foram fechadas e os jovens não estão a receber formação profissional», lamenta Eduin Ruiz e complementa: «Muitas famílias com crianças não contam com a presença do pai acabam na rua onde ficam sujeitas à violência, pobreza e delinquência. A nossa luta é pela vida, contra as drogas, o alcoolismo, a insegurança».

Sinais de consolação
De visita à Venezuela, o padre Stefano Camerlengo, Superior Geral do IMC, deixou três palavras de encorajamento às lideranças. «A consolação: que não é uma ideia, uma política, mas Jesus Cristo Salvador; comunhão: a comunidade não é somente o padre, mas todos os que vivem e trabalham por valores comuns; libertação: conforme insiste o Papa Francisco, uma Igreja em saída significa que não devemos somente rezar entre nós, mas precisamos sair para encontrar e incluir os outros no anúncio do Evangelho que é alegria e salvação para todos».

O povo recorda com carinho todos os missionários da Consolata que nos últimos 30 anos trabalharam na região. Para a catequista Alejandrina Pimentel, «cada um com seu jeito contribui com seu carisma». «Procuramos compreender a todos. Vou à Igreja pela minha fé e não pelo padre», observa. Pedro Vamonde vê a importância de dar continuidade ao trabalho: «A proximidade com os missionários nos ajudou a mudar. A Igreja somos nós e precisamos contribuir mais para sustentá-la».

Os missionários da Consolata estabeleceram-se na Venezuela, em 1971, com o padre Giovanni Vespertini, na diocese de Trujillo. Com a chegada, em 1974, do padre Francesco Babbini e outros missionários, estenderam a presença na arquidiocese de Caracas. A delegação IMC Venezuela foi criada em 1982. As missionárias da Consolata também têm três comunidades no país, em Caracas, Puerto Ayacucho e Tencua.
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