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Fátima
Memórias dos 75 anos do IMC em Portugal: «O padre João De Marchi era pai e mãe»
Texto Albino Brás | Foto Albino Brás | 03/02/2019 | 09:51
Evento dedicado aos 75 Anos da presença do Instituto Missionário da Consolata em Portugal contou com a intervenção de três missionários da Consolata portugueses
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O Consolata Museu, realizou mais uma sessão do «Chá com arte», em Fátima. O evento decorreu na tarde de sábado, 2 de fevereiro, e foi dedicado aos «75 Anos da presença do Instituto Missionário da Consolata em Portugal - Estórias e Memórias». A tertúlia contou com a intervenção de três missionários da Consolata portugueses.


Os padres Aventino de Oliveira e Jaime Marques, dois dos intervenientes na mais recente sessão do «Chá com arte» do Consolata Museu, já tem mais 85 anos, mas têm a memória muito fresca. Trazem ao presente memórias de um passado distante, como se quisessem transportar quem os ouve para as décadas de 1940 e 50 do século passado, nos primeiros anos dos Missionários da Consolata em Portugal, epla mão do padre João De marchi. E conseguem. Como se ali estivessemos a ver ao vivo o que acontecia e como acontecia.


Estes dois missionários fazem parte do primeiro grupo de seminaristas portugueses que entraram no primeiro seminário da Consolata em Portugal, aberto em Fátima em 1944.


Os convidados a este «Chá com arte» lembraram que o padre João De Marchi chegou a Portugal em 1943 e abriu o primeiro seminário, numa pequena casa emprestada, em 1944. E frisaram que o Missionários da Consolata foram a primeira congregação masculina e missionária na Cova da Iria. Naquele ano havia quatro congregações religiosas ali estabelecidas, todas femininas.


«Um homem extraordinário»
O Padre Aventino referiu a grande inteligência do padre João De Marchi, um especialista em Bíblia, e «o aluno com as melhores notas no Instituto Bíblico em Roma», referiu. Ele «era um homem extraordinário», rematou.


Já o padre Jaime Marques aponta o despojamento como uma das suas caraterísticas. «Era notório o sentido de pobreza pessoal daquele homem. Não gostava de gastar nada para si».


E o padre Jaime - oriundo de Santa Catarina da Serra, com um irmão também na Consolata, - aproveitou para narrar um facto que poucos conhecem. Falou da grande amizade que existia entre o padre De Marchi e Manuel Pedro Marto (Ti Marto), o pai dos pastorinhos São Francisco e Santa Jacinta de Fátima. «O Ti Marto, além de ter sido o primeiro a acreditar nas Aparições, era um homem muito sincero e muito reto, e dizia `eu não quero que algum dia se diga que me aproveitei das Aparições para ter dinheiro para mim´; então, os visitantes davam-lhe dinheiro, ele punha-o dentro do seu carapuço, e depois ia à Consolata (normalmente à segunda-feira), e entregava tudo ao padre João de Marchi, dizendo que era para as Missões».


Estes dois missionários da Consolata – Aventino e Jaime -, que privaram já enquanto seminaristas com o padre João De Marchi, coincidem nas memórias sobre este missionário da Consolata italiano. «Nós considerávamos aquele homem como um pai e mãe», confessa o padre Jaime Marques, imediatamente acompanhado por um gesto afirmativo por parte do padre Aventino.


Um grande promotor de Fátima no mundo
Outro dos intervenientes nesta tertúlia, conduzida pelo diretor do Museu Gonçalo Cardoso, foi o padre Diamantino Antunes, atual superior regional dos Missionários da Consolata de Moçambique e Angola, e que se encontra a gozar um período de férias no nosso país. Este missionário da Consolata português é autor de um estudo científico sobre a presença e atividade dos Missionários da Consolata em Portugal (1943-1952) e também das instituições e concretizações missionárias do padre João De Marchi.


Diamantino diz que De Marchi era um homem «cheio de ideias e concretizador. Procurou sempre adaptar-se à realidade portuguesa.» Mas diz também que havia quem, dentro da instituição, o considerasse um pouco «cabeça no ar». De tal forma que até enviaram padres do IMC da Itália com a intenção de o assessorar, ou «controlar».


O que é mesmo relevante – disse o padre Diamantino – é que já em 1957, 12 anos depois de abrir o primeiro seminário da Consolata em Fátima, foram enviados os primeiros missionários da Consolata para Moçambique. E avançou com um número significativo. Desde a fundação do IMC naquele país africano, em 1925, até aos dias de hoje, dos 225 missionários da Consolata que ali trabalharam, 43 eram portugueses.


Da vasta obra do padre João De Marchi destacam-se três aberturas missionárias: Portugal, Estados Unidos da América e Etiópia. Já na escrita destacam-se quatro livros, sendo que o mais conhecido e traduzido pelo mundo é sobre o fenómeno de Fátima: «Era uma Senhora mais brilhante que o sol». Um livro que, revela o padre Aventino, quando foi publicado nos EUA vendeu em pouco tempo cerca de 800 mil exemplares. «De Marchi foi um grande promotor de Fátima nos EUA», diz o padre Aventino, da Fundada, Vila de Rei e atualmente a residir a comunidade da Consolata em Fátima, lamentando que o Santuário e autoridades de Fátima não reconheçam com ações e sinais visíveis a relevância desta figura impar para esta cidade-santuário e a sua mensagem.


O «Chá com arte», que nesta edição teve lotação esgotada, com sala cheia, é uma iniciativa do Consolata Museu, em parceria com a sua Liga de Amigos e com o apoio de Aromas da Oreana. Acontece num ambiente intimista, com degustação de chá e biscoitos numa das salas do Museu, e o público pode interagir, colocando perguntas aos convidados.

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