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Mais de 100 mil crianças forçadas à mendicidade no Senegal
Texto F.P. | Foto Lusa | 12/06/2019 | 07:02
Menores, conhecidos como crianças «talibé», são vítimas de castigos físicos, abusos sexuais e de negligência em dezenas de escolas corânicas no país, denunciam as organizações de defesa dos direitos humanos
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Um relatório conjunto da Human Rights Watch (HRW) e da Plataforma para a Proteção dos Direitos Humanos do Senegal (PPDH, na sigla em inglês) concluiu que mais de 100 mil crianças «talibé» continuam sujeitas a mendicidade forçada, castigos físicos, abusos sexuais e negligência, em dezenas de escolas corâncias do país. O documento, que abrange o período de 2017 e 2018, fala em «níveis alarmantes» de maus tratos físicos e acusa as autoridades de inércia perante o problema.

Durante a investigação, as organizações documentaram a morte de 16 crianças vítimas de castigos físicos, negligência e ameaças por parte de professores de escolas corânicas residenciais, conhecidas como daaras. E reuniram provas de abusos contra estas crianças em oito das 14 regiões do Senegal, incluindo 61 casos de abusos físicos, 15 casos de violações ou tentativa de violação e 14 casos de crianças fechadas e acorrentadas.

«As crianças `talibé´ estão a encher as ruas, sofrem abusos horrendos e morrem desses abusos e por negligência. As autoridades senegalesas dizem que estão comprometidas em proteger as crianças e em acabar com a mendicidade forçada, então porque é que tantas ‘daraas’ abusivas, exploradoras e perigosas continuam abertas?», questiona Corinne Dufka, diretora associada da HRW para África.

A situação das crianças «talibé» no Senegal já tinha sido denunciada pela HRW num outro relatório, em 2010, em que a organização instava o governo a regulamentar as daaras, mas volvidos estes anos a situação pouco ou nada se alterou. Para a elaboração deste novo relatório, de 71 páginas, as duas organizações visitaram quatro regiões do país, entrevistaram 150 pessoas, incluindo 88 atuais e antigos «talibé», 23 professores e dezenas de trabalhadores sociais, especialistas em proteção de crianças e membros da administração senegalesa.

A maioria das crianças entrevistadas apresentava cicatrizes ou feridas visíveis e disse ser obrigada à mendicidade. «Batiam-nos a toda a hora se não memorizávamos os versos do Corão ou se não trazíamos dinheiro. Batem-te até pensares que vais morrer», testemunhou uma criança de nove anos, que fugiu de uma daara em Dacar em 2018 para escapar aos abusos.
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