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Editorial
Ajudar sem atrapalhar
Texto Opinião | Albino Brás | 07/07/2019 | 11:18
Mede-se o bem-estar da África a partir de parâmetros ocidentais, quando sabemos que é um continente com culturas riquíssimas, com etnicidades únicas. Deu, por exemplo, estéticas litúrgicas únicas à Igreja, com seus coros e danças alegres
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África é um continente que combina mistério e fascínio, força e fragilidade. Mas ainda vive refém dos muitos clichés e estereótipos, que a descrevem como o continente `pobre´, `coitadinho´, `cheio de carências´, sempre a partir dos parâmetros de comparação ocidentais. Uma narrativa que alimenta a corrida arriscada dos seus filhos sobretudo pelo território europeu, em busca de uma suposta terra prometida, num sonho que termina, por vezes, nas águas no Mediterrâneo.

Durante décadas, as políticas africanas foram desenhadas desde fora, a partir das Nações Unidas, de ONG estrangeiras e dos seus programas e projetos, impondo muitas das vezes soluções desajustadas e com métodos discutíveis. É que nenhum país se pode desenvolver à base da ajuda estrangeira, coisa que a África tem recebido, décadas a fio, numa perspetiva assistencialista. A continuada exploração dos seus recursos, aliada ao paternalismo ocidental, sobretudo europeu, impedem o continente de caminhar pelos seus próprios pés.

Muitas das vezes quem ajuda cria dependência, fazendo passar a ideia que o outro vai precisar sempre dessa ajuda, dificultando assim o despertar das suas próprias capacidades. Não serve mais fazer `por eles´ e `para eles´, mas fazer `com eles´, respeitando ritmos, contexto e a sua própria criatividade e autonomia; implementando estratégias que tenham em conta os que ali moram, assim como as estruturas e realidades locais como atores e fatores de um futuro sustentável.

Há muitas ONG a trabalhar em e para África, com programas e calendários próprios, muitas das vezes criando expectativas junto das populações que sabem de antemão que nunca poderão cumprir, pois um dia irão embora, e, sem fortalecimento das instituições, sem empoderamento e responsabilização dos locais, o processo vai com eles, alimentando uma eterna dependência `do que vem de fora´.

Por ouro lado, mede-se o bem-estar da África a partir de parâmetros ocidentais, quando sabemos que é um continente com culturas riquíssimas, com etnicidades únicas. Deu, por exemplo, estéticas litúrgicas únicas à Igreja, com seus coros e danças alegres. África deve olhar mais para o que tem e não tanto para o que lhe falta. África não precisa de tudo o que é importante para os países ocidentais para ser feliz! O continente de Mandela deve resistir à sua ocidentalização, preservando costumes, economia circular, cultura. Deixemos África ser África.
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