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Desafios da evangelização na periferia urbana
Missionários promovem «formação do espírito crítico» na Venezuela
Texto Jaime C. Patias | Foto Jaime Patias | 20/08/2019 | 09:18
Missionário da Consolata presente na Venezuela acredita que a «formação do espírito crítico» promovida entre os cristãos é importante «para que eles façam escolhas acertadas e não sejam manipulados»
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A situação de instabilidade na Venezuela continua a desequilibrar a população, em todos os níveis, e desafia a missão da Igreja. Na cidade de Caracas, como nas metrópoles da América Latina, a maioria da população não tem acesso aos recursos e oportunidades que garantam melhores condições de vida. A pobreza, a desigualdade e as diferentes formas de exclusão social afetam as famílias e tornam-se um grande desafio para a Evangelização. Estamos em Carapita, um bairro de aproximadamente 100 mil habitantes na periferia da capital venezuelana, onde trabalham os padres Rodrick Tumaini Minja e Beni Kapala, missionários da Consolata, na paróquia de San Joaquim e Santa Ana.

O bairro estende-se por colinas com casas empilhadas. As ruelas são íngremes, o que torna difícil chegar ao topo sem um carro de tração. No bairro existem muitos desses carros que sobem e descem carregando pessoas e mercadorias. Fundada a 25 de janeiro de 1990, a paróquia está organizada em sete setores que são comunidades de base muito ativas, incluindo a igreja matriz que fica na parte baixa. Cada capela tem uma religiosa responsável que são as Irmãs dos Sagrados Corações e as Irmãs da Caridade, moradoras na vizinhança e um diácono permanente.

O pároco Rodrick é tanzaniano e conta-nos sobre a missão em Carapita e os seus desafios na atual situação de crise no país. «Aqui adotamos a pastoral missionária buscando, em primeiro lugar, os que que estão afastados. Diante da crise económica, social e moral, encontramos tantas necessidades. De uma forma ou outra temos que atender com as nossas pastorais.» O missionário conta que a falta de transportes e espaços, afeta as atividades. «Temos de cancelar reuniões, reduzir as deslocações e inventar coisas para nos adaptarmos à situação. Não temos espaços adequados para as atividades e por isso estamos a construir salas para a catequese, mas também para a formação do espírito crítico dos cristãos. Está bem atender às emergências, mas a solução é mais complexa. Por isso, a importância da formação para que eles mesmos façam escolhas acertadas e não sejam manipulados», afirma o padre e conclui: «Vamos caminhando com o que o cardeal de Caracas, Baltazar Enrique Cardozo chama de Pastoral da Esperança, pois a nossa missão aqui é consolar.»

Sopão da solidariedade

A crise é mais perceptível nos serviços e na falta de recursos para comprar produtos básicos, principalmente alimentos. Hoje o salário mínimo é de 40.000,00 bolívares (apenas 3.35 dólares). Com esse valor não se pode comprar quase nada. (um quilo de leite em pó custa 78.000,00; um quilo de arroz: 12.000,00; um quilo de carne: 25.000,00; um quilo de frango: 14.000,00; uma caixa de ovos: 28.000,00). Por outro lado, a gasolina sai quase de graça. Pode-se encher o tanque e se não houver notas para pagar, segue viagem. Então como vive a população mais humilde? Os venezuelanos fora do país já somam mais de 4 milhões. Muitos enviam dólares para as suas famílias. A cada dois ou três meses o governo doa uma cesta básica para uma parcela da população registada. Os que ganham algo alimentam os demais. É comum ver jovens a catar e a comer restos de comida no lixo. Uma cena forte que revela a gravidade da situação.

Nessas condições, a criatividade e a solidariedade fazem a diferença. Como forma de amenizar as dificuldades, na paróquia de Carapita, todos os domingos um grupo de voluntários prepara um `sopão´ que é servida a cerca de 400 pessoas. Os ingredientes são fornecidos pela Pastoral Social com o apoio da Cáritas e doações, mas a iniciativa conta com a solidariedade de muita gente. Em tempos de crise os cristãos vivem com mais fervor o mandamento do amor, a exemplo de Eugênio Euclides Camejo, um dos coordenadores da iniciativa. «Aqui está tudo organizado. Aos sábados compramos a verdura e quando não temos lenha, eu e meu filho saímos à procura e trazemos aqui para igreja. Eu sinto-me bem neste trabalho. Temos fé que o país vai melhorar para podermod comer bem. Enquanto isso, nós vamos levando», diz.

Evangelização

A paróquia conta com pastorais, grupos e movimentos: Pastoral da Missão, Pastoral Social, Pastoral Juvenil, Pastoral Familiar, Catequese, Legião de Maria, Movimento Luís Variara, Eu tenho Sede e Laços de Amor Mariano. Cada comunidade possui um Conselho Pastoral e um Conselho de Administração. A comunidade e os coordenadores compõem o Conselho Pastoral da Paróquia.

O coordenador da catequese, Wilmer Daniel Ramírez, fala sobre o trabalho de evangelização. «A situação social e política do país também afeta a catequese, já que muitos jovens e crianças estão a migrar. O número na catequizandos que era de 250 já caiu para 120. Estamos a passar por uma situação difícil. Mas nós não perdemos a esperança. Continuamos a apostar no país confiando na misericórdia de Deus que tem pena de cada um de nós. Queremos voltar aos canais democráticos para reconstruir a Venezuela», afirma Wilmer.

Centro pastoral e de residência

Outro projeto ousado da paróquia de Carapita em tempos de crise é a construção do Centro Pastoral com salas para catequeses e reuniões, incluindo residência para os padres. O trabalho já começou graças à doação de material por alguns benfeitores da Venezuela. Uma vez assentadas as bases e levantadas as estruturas, a comunidade espera agora obter recursos para completar a construção ao lado da igreja paroquial. No meio de tantas dificuldades, o que chama a atenção é o olhar de esperança de quem acredita na vida da comunidade. Na Venezuela trabalham 13 missionários da Consolata com a Pastoral Afro, a Pastoral Indígena e nas periferias urbanas e existenciais, a Animação Missionária e Vocacional, entre outros serviços

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