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Portugueses em esforço para deixar Tanzânia melhor
Texto J.B. | Foto DR | 21/08/2019 | 09:21
Missão de jovens portugueses em Mgongo, na Tanzânia, tem sido marcada por um misto de experiências, que incluem obras de reabilitação e um parto, mas também pela emoção causada pela capacidade de dar de quem tão pouco tem
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Catorze jovens portugueses ligados aos Missionários da Consolata encontram-se neste mês de agosto na missão de Mgongo, na Tanzânia, embalados pelo projeto «Harakati», que prevê a construção de uma residência de estudantes para 150 jovens que diariamente percorrem cerca de 20 quilómetros para frequentarem as aulas na missão.

 

No último fim de semana, os jovens lusos participaram na inauguração das «obras de reabilitação do refeitório» da Escola da Missão de Mgongo, onde comem «diariamente cerca de 60 estudantes». As obras foram levadas a cabo pelos próprios jovens. «Jantámos com todos os estudantes, professores e com a comunidade que ali se deslocou. Seguiu-se o corte do bolo e uma noite recheada de partilha de culturas com danças e cânticos que nos encheram o coração», contam os jovens, através das redes sociais.

 

Poucas horas depois da inauguração no espaço, a comunidade «foi presenteada com o nascimento de um bebé, cujo parto foi assistido por alguns elementos do grupo, e que em partilha posterior, nos fizeram chegar os sentimentos, dificuldades e principalmente o amor que ali se viveu». «Estamos gratos e felizes. O milagre da vida é transversal a todas as culturas, credos e nações.»

A inauguração do refeitório foi o culminar de um conjunto de «trabalhos» no local. Em curso está ainda a «reabilitação das duas salas de informática». «Têm sido dias de muito desgaste físico e psicológico mas que valem cada segundo do tempo que entregamos a esta comunidade», escrevem os jovens.

Na Tanzânia desde o início de agosto, os jovens ligados ao Instituto Missionário da Consolata têm contactado com crianças órfãs e menores «abandonados pelas suas famílias», momentos esses que têm sido marcados por «cânticos, muita alegria e amor». A dança e a partilha de «músicas típicas» de Portugal e da Tanzânia também fizeram parte do leque de experiências dos jovens.

A iniciativa da comunidade tanzaniana de Matembo deixou os jovens enternecidos logo pela manhã, depois de uma noite passada na capela local. «Tínhamos água fervida pelas `Mamãs´ da aldeia, que acordaram de madrugada para que tivéssemos a oportunidade de tomar um banho e fazer a nossa higiene pessoal. Ao pequeno-almoço serviram-nos chá preto e o `mandazi´ (bolo típico da Tanzânia), que foi partilhado entre o nosso grupo com um entusiasmo marcante, pelo sabor e tradição que comporta.»

A animação da Eucaristia Dominical naquela comunidade também deixou os portugueses surpreendidos. «Foi um momento de descompressão, de gratidão e de profunda admiração. Os cânticos, as danças, o som dos tambores, os `vigelegele´ (gritos) das `Mamãs´, a energia frenética das crianças e os seus sorrisos, criaram em nós uma sensação de pequenez do nosso espírito e da nossa alma. Não há, nem pode haver tal coisa como um paternalismo por este povo porque os aprendizes somos nós, muitas vezes condicionados e quadrados nos dogmas europeus e nas vidas corridas, muitas vezes desprovidas de sentido que levamos.»

Depois da celebração foi tempo dos portugueses cozinharem para a comunidade que os acolheu. «O almoço foi feito utilizando a cozinha tradicional, na fogueira acesa pelas `Mamãs´. Provaram os nossos sabores, ficaram rendidos ao esparguete e estranharam as salsichas e o atum entre risos e bater de palmas. Posteriormente, entregámos os 50 cabazes, previamente preparados para o efeito, com produtos alimentares e roupa doada» em Portugal.

Estes momentos de partilha foram vividos numa das comunidades «mais pobres e com mais necessidades materiais e carências afetivas e humanas» da região. A deslocação até lá foi uma aventura. «O desafio começou na viagem de ida, entre socalcos e buracos, que nos faziam ir até ao teto do jipe e voltar ao bando, num percurso de cerca de 60 quilómetros da Missão de Mgongo, que se traduziram em três horas de viagem.»

Além das boas experiências vividas no local, a visita permitiu perceber, «entre cânticos, gargalhadas, cavalitas e jogos de apanhada», a «dificuldade que está presente» para se conseguir o acesso a água, um percurso com «cerca de 3,5 quilómetros até ao poço», por onde «crianças de cerca de cinco anos carregam `facilmente´ entre 25 a 30 litros de água para servir as respetivas famílias».

No jantar na comunidade de Matembo «lavaram-nos as mãos depois de um fim de tarde de contemplação do pôr-do-sol, com as crianças e as suas famílias com quem dançámos e criámos verdadeiros laços». A noite passada no local «foi de partilha de sentimentos, emoções e de gratidão debaixo de um céu e de uma lua que só quem conhece África consegue perceber. Dormimos na capela, sem luz e sem vidros nas janelas (ouvimos e sentimos o vento frio da savana africana) e antes de nos deitarmos» foram entregues «esteiras de cores e texturas tipicamente africanas» emprestadas pelas «famílias da comunidade», para proporcionar às visitas «uma noite mais confortável e quente possível». «Foi um ponto de viragem de cada um de nós enquanto seres humanos, enquanto voluntários para a missão.»

Ao longo da sua visita ao país africano, os jovens afirmam que se têm entregado de forma «total e sem medidas» àqueles que os rodeiam. «Nunca estamos sozinhos. Há sempre alguém que nos olha de longe e que solicita, ainda que muitas vezes silenciosamente, o nosso abraço, o nosso colo e o melhor de nós. Participamos em ações desportivas e culturais que são parte do dia-a-dia destas crianças e jovens e que nos foram e são ensinadas pelos próprios, tentando nós absorver e participar da forma mais ativa possível. (...) Tem sido um caminho que, longe de se manifestar fácil, nos tem trazido as mais belas certezas de que chegamos sempre ao sítio onde somos precisos. (…) As comunidades ansiavam-nos da mesma forma que nós a elas».

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