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Sínodo para a Amazónia e a conversão eclesial
Texto Jaime C. Patias | Foto Ana Paula | 01/09/2019 | 11:03
O encontro sinodal convocado pelo Papa Francisco tem uma perspetiva universal. A Amazónia recorda-nos que tudo está interligado nesta ‘Casa Comum’, onde toda a humanidade é uma família. Portanto, cuidar da Amazónia é cuidar de todos
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A convocação de um Sínodo Especial para a Amazónia foi mais uma boa notícia na era do Papa Francisco. O seu Pontificado é um esforço incansável por uma Igreja pobre e em saída missionária e por uma ecologia integral. O compromisso de Francisco é reformar a Igreja, processo que encontra mais resistências internas do que externas. Logo no início, ele mostrou-se preocupado com a Amazónia e chegou a considerá-la um «teste decisivo, banco de prova para a Igreja e para a sociedade brasileira». Com este sínodo, estamos diante de um «tempo de desafios graves e urgentes» mas também de um «tempo de graça» e «esperança» para dar passos decisivos no processo de «conversão ecológica e pastoral» da Igreja, interpelada pelas «periferias geográficas e existenciais».

O «Instrumentum Laboris» do sínodo é fruto de um amplo processo de escuta e aponta medidas concretas a serem debatidas pelos padres sinodais na sua assembleia conclusiva, de 6 a 27 de outubro, em Roma. Organizado em três partes, o texto destaca uma série de sugestões a serem adotadas pela Igreja com a finalidade de tornar realidade o convite a uma ecologia integral que acolha «o clamor da terra e dos pobres», em sintonia com a encíclica «Laudado si».

Ordenação de homens casados
Assim que o documento de trabalho foi publicado, no passado 17 de junho, as manchetes nos órgãos de comunicação focaram-se quase exclusivamente na ordenação de homens casados. A proposta, primeiro afirma «que o celibato é uma dádiva para a Igreja», e em seguida pede que «para as áreas mais remotas da região, se estude a possibilidade da ordenação sacerdotal de pessoas idosas, de preferência indígenas, respeitadas e reconhecidas pela sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável, com a finalidade de assegurar os sacramentos que acompanhem e sustentem a vida cristã». Pede-se que «em vez de deixar as comunidades sem Eucaristia, se mude os critérios para selecionar e preparar os ministros autorizados para celebrá-la». Sabe-se que o próprio Papa Francisco incentivou «propostas ousadas». Diante das necessidades da Igreja na Amazónia, esta é uma proposta corajosa. O documento propõe também «identificar o tipo de ministério oficial que pode ser conferido à mulher, tendo em consideração o papel central que hoje ela desempenha na Igreja amazónica». Com isso, a Igreja reconhece que a presença feminina nas comunidades nem sempre é valorizada. Se de facto quisermos passar de uma pastoral de visita para uma pastoral da presença permanente é preciso valorizar os ministérios provenientes dos habitantes da região de modo que a Igreja assuma um rosto amazónico.

Consciência ecológica
Mas é preciso destacar outras iniciativas não menos comprometedoras para a Igreja como o convite a uma «nova consciência ecológica» e a um ativismo em matéria social, política e económica para «desmascarar as novas formas de colonialismo presente na Amazónia».
O documento afirma que a Igreja é chamada a «ouvir o clamor da ´Mãe Terra´, agredida e gravemente ferida pelo modelo económico de desenvolvimento predador e ecocida, que mata e saqueia, destrói e dissipa, expulsa e descarta, pensado e imposto a partir de fora e ao serviço de poderosos interesses externos».
Para isso, desafia os padres sinodais a «assumir sem medo a aplicação da opção preferencial pelos pobres na luta dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, dos migrantes e dos jovens, para configurar a fisionomia da Igreja amazónica”.
A conversão pastoral de uma Igreja que quer ser samaritana e profética, depende da sua capacidade de escuta, uma das marcas do Pontificado de Francisco.

Num dos vários seminários de preparação para o sínodo, o teólogo jesuíta, Victor Codina, observou que a Igreja «apesar da sua grande ajuda, ainda está distante, é colonial, clerical, fiscal, alheia às suas línguas, culturas e espiritualidade, mais de visita do que de presença próxima». E concluiu: «Somente ouvindo o clamor do povo amazónico poderemos denunciar profeticamente a injustiça dos poderosos e procurar uma conversão ecológica integral da sociedade e da Igreja».

Para transformar a nossa mentalidade é preciso olhar e atuar com mais Evangelho e com o sentido de Pentecostes onde o Espírito de Deus guia e encoraja. Este olhar diferente exige uma Igreja em saída missionária, desde e para as periferias, superando a mentalidade colonizadora em busca de uma «encarnação mais real para assumir diferentes modos de vida e culturas».

Reações do governo brasileiro
A realização do sínodo preocupa o atual governo brasileiro que teme críticas à sua política anti-indigenista, ameaça rever a demarcação e homologação de terras indígenas, flexibiliza leis de proteção ambientais e de combate às mudanças climáticas, além de ressuscitar a velha ideologia de segurança nacional defendida pelos militares ainda na década de 1970 por medo de perder a soberania do território amazónico.

O governo de Jair Bolsonaro teme uma possível promoção de uma «agenda esquerdista do clero progressista» vinculado aos movimentos sociais, numa Igreja que desde a chegada do Papa Francisco abraçou os desafios ambientais. Assim que chegou ao poder, o Presidente brasileiro transferiu a demarcação de terras indígenas e o serviço de monitorização florestal da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) para o Ministério da Agricultura, provocando críticas de organizações indígenas e ambientalistas. A visão utilitarista de Bolsonaro faz parte do sistema predatório vigente que também prega o controle das organizações não governamentais (ONGs), apoia o agronegócio em terras indígenas – restrito por lei – e recusa conceder mais territórios a essas comunidades ancestrais, que já foram alvo de desmatamento causado pela extração ilegal de madeira, mineração e expansão da fronteira agrícola.

Se o sínodo é uma boa notícia para a defesa da Amazónia e dos seus povos, por outro lado, é uma má notícia para os adeptos desse sistema perverso. É importante esclarecer que o sínodo não foi convocado para criticar este ou aquele governo, mas é fruto do compromisso profético da Igreja, presente ao longo dos anos nos nove países que compõem a Pan-Amazónia. No Brasil, ainda em 1952, mesmo antes da criação da Amazónia Legal (1953), a Igreja Católica reunia-se para se posicionar diante dos problemas sofridos pelos povos da região. A Igreja sempre tem demonstrado a sua vitalidade e posicionamento profético e solidário. Mas foi no histórico Encontro de Santarém, em 1972, que os bispos decidiram basear a ação pastoral em duas diretrizes: a encarnação na realidade e a evangelização libertadora. A Igreja na Amazónia adotou as novas orientações vindas do Concílio Vaticano II, de Medellín e Puebla, Santo Domingo e Aparecida, e procurou evangelizar a partir de uma visão mais ampla e profunda da vida e da realidade. Outro momento importante foi o encontro de Puyo, Equador, em abril de 2013, com a presença de um grande número de pessoas de todos os países da Pan-Amazónia e que resultou na criação da Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM), em setembro de 2014 (Brasília – Brasil). Conforme se pode constatar, o atual governo brasileiro tem apenas seis meses, enquanto que o compromisso da Igreja com a Amazónia já tem um longo caminho no qual o sínodo é um ponto de chegada e de partida. Enquanto o governo teme a internacionalização da Amazónia a Igreja empenha-se em «amazonizar» o mundo.

A Amazónia representa uma esperança para o planeta e «convida-nos a descobrir a tarefa educativa como um serviço integral para toda a humanidade em vista de uma cidadania ecológica». Além disso, todo o sínodo tem uma perspetiva universal, e por isso vai muito além da territorialidade à qual foi determinado. Hoje, como lugar teológico, a Amazónia recorda-nos que tudo está interligado nesta ‘Casa Comum’, onde toda a humanidade é uma família. Portanto, cuidar da Amazónia é cuidar de todos.
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