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O homem contemporâneo e a amizade
Texto Opinião | Vicente Sacramento Coelho | 07/09/2019 | 11:32
Sejamos fraternos e teremos amigos. Sem fraternidade, não há amizades autênticas
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Qual é a conceção de amizade segundo a mentalidade atual? A nossa época parece não saber falar de amizade no seu sentido mais profundo, ou seja, na atual sociedade os amigos não passam, com frequência, de companheiros do trabalho diário, da escola, do jogo, de «amiguitos» do Facebook ou conhecidos alheios à nossa vontade. Dito de outra forma, o que vemos nas ruas, aqui e além, é a «amizade de circunstância» – que não deixa de ser amizade, como diz Ignazio Merino na sua obra «Elogio da Amizade».

Um dos grandes dramas da sociedade do século XXI, isto é, do homem contemporâneo é de não haver com quem ir ter nos momentos difíceis - muitas são as séries televisivas, as novelas, os desenhos animados que retratam este drama preocupante. Muitas vezes perguntamo-nos sobre o porquê daquela relação «conjugal», relação de namoro, relação política ou relação entre Estados, ter terminado. Se nós tivéssemos que responder a esta pergunta, diríamos que faltou a amizade no seu sentido mais profundo. Todos nós sabemos que a paixão, mais cedo ou mais tarde, passa, mas a amizade não. Porque ela, para além de ser um dom e uma virtude, implica fidelidade, disponibilidade, ajuda mútua e oportuna, renúncia, sacrifício, perdão, persistência.

Ignazio Merino diz que um novo paradigma globalizador caracteriza a amizade destes tempos, como interesseira, como a deslealdade leviana, como a desconfiança. Tudo isto mostra-nos o quanto é importante voltar a devolver à amizade o seu valor e o seu significado mais profundo, significado este que é tão fundamental para a existência humana.

Atilmo Alaiz diz na sua obra «La amistad es una fiesta» que «há poucos amigos porque a amizade tem mais de doloroso que de lotaria. É uma experiência para os espiritualmente apetrechados; não se trata de um espontâneo sentimento romântico, mas sim de amor, e isso é esvaziamento, morte, doação». Diz o autor: «Não creio que alguém duvide que o amor seja morte, não creio que a morte seja coisa de medíocres. Construir amizade é uma aventura com dores e alegrias».

Por outro lado, se nos detivermos no pensamento dos grandes clássicos como Platão, Aristóteles, Epicuro, Cícero, Séneca, Abelardo, Erasmo de Roterdão, Montaigne, Bacone, Descartes, Malebranche, Voltaire ou Kant, veremos que todos têm um tratado sobre a amizade. Embora saibamos que a amizade que os filósofos defendem é quase sempre uma amizade no abstrato, porque todas as definições de amizade propostas por eles carecem do amor fraterno e do «compromisso de caridade».

Contudo, Aristóteles, no seu tratado «Ética a Nicómaco», diz que «a amizade é sempre ativa, é sempre um ato, e é sempre um ato de amor e de amor no sentido do bem ontológico do outro». Mas tal não basta e, para que haja amizade, tem de haver reciprocidade no ato de amor. A amizade, como considerada por Aristóteles, tem três níveis, só sendo amizade propriamente dita no seu nível mais elevado, em que se realiza puramente.

No primeiro nível é uma amizade de interesse, isto é, o bem do outro interessa-nos enquanto o meio para o nosso próprio bem. Cessando o nosso interesse, cessa o amor pelo bem do outro e cessa a amizade. No segundo nível temos uma amizade do honesto, do útil e do prazer, isto é, no fundo amamos o outro porque nos dá prazer amá-lo, e porque nos dá prazer amá-lo, logo, ele é obrigado a amar-nos. Isto leva-nos a entender que a amizade aprazível é estabelecida sobretudo pelo deleite que a companhia do outro nos dá. No último nível, temos uma amizade propriamente dita, onde a relação se dá entre dois seres humanos que se amam, em que ambos querem exclusivamente o bem do outro. Esta última etapa mostra-nos uma amizade totalmente livre nas suas relações humanas, sem se deixar absorver ou manipular pelo outro. No fundo, este terceiro nível mostra-nos uma amizade virtuosa, que procura antes de tudo o bem do outro.

Na linha de Aristóteles, Cícero e Séneca também acabam por classificar a amizade como virtude – mas a força dos seus ideais estoicos acaba por levar a melhor, e eles terminam identificando a amizade como sabedoria: «Só o sábio sabe amar, só o sábio é amigo». Detenhamo-nos agora na novidade que a Sagrada Escritura nos oferece acerca da amizade. A Bíblia reconhece a importância da amizade verdadeira e, por isso, não poupa palavras a enaltecer o seu valor e o seu significado. O livro de Deuteronómio fala do amigo (réa, em hebraico) como aquele ou aquela que «tu amas como a ti mesmo»; no livro de Ben Sira temos o elogio do amigo verdadeiro: «Um amigo fiel é uma poderosa proteção; quem o encontrou, descobriu um tesouro. Nada se pode comparar a um amigo fiel; e nada se iguala ao seu valor. Um amigo fiel é um bálsamo de vida; os que temem o Senhor acharão tal amigo».

Como nos podemos aperceber, a Bíblia narra a história de verdadeiras amizades; por isso, o símbolo e as imagens de amizade que ela nos oferece revelam os traços de um verdadeiro amor que é a expressão da amizade de Deus para com o homem. Nos evangelhos, Jesus leva-nos a entender que a verdadeira amizade supõe uma mútua eleição; é gratuita, somos amados como somos, com o seu quê de «mistério»; é uma história que se cria e se desenvolve; um valor em si, isto é, a amizade deixa de ser um mero adjetivo e passa a ser substância.

Françoise Dolto diz que a amizade é uma experiência muito interessante, porque na amizade há segurança sem que exista pressão. O que não podemos conhecer do outro deixamos serenamente que permaneça incognoscível. No fundo, o autor quer dizer que o facto de não conhecermos tudo não afeta a relação que mantemos.

Na mesma linha, Tolentino Mendonça vem corroborar esta tese de Françoise Dolto, dizendo que «as amizades mais fortes são as que aceitam os seus caminhos frágeis, as suas costuras humildes. A construção da confiança passa, necessariamente, por apreendermos a aceitar as nossas lágrimas».

Poderíamos afirmar também que a figura de São Pedro nos pode servir de espelho interior. No fundo, a figura de Pedro leva-nos a entender que a amizade não significa assegurar-se de que nunca seremos dececionados ou de que nunca vamos dececionar o outro. Nenhuma vida está isenta desta prova porque o pacto da amizade nunca escapa à turbulência dos nossos limites, incoerências, fraquezas. «A amizade é uma experiência sustentada pelo perdão». Muitas vezes, na amizade, é só isso que nos falta. Usando as palavras de Tolentino, «um amigo é alguém capaz de olhar, mesmo que por um segundo que seja, o sorriso, desperto ou adormecido, que cada um de nós traz no fundo da alma. Um amigo é um pastor e um mestre do nosso sorriso».  

Queremos, pois, salientar que este texto não descarta as nossas amizades contemporâneas, tentando simplesmente sugerir o aprofundamento destas amizades segundo a lógica com a qual São Tomás descreve a verdadeira amizade. Tomás de Aquino diz que, para haver verdadeira amizade, é preciso haver três coisas: a benevolência (que significa querer o bem do amigo); a beneficência (isto é, fazer bem ao amigo sempre que for possível), e por último a confidência (isto é, abertura da intimidade ao outro). Estas três características de amizade são sintetizadas no imperativo de amor ao próximo que Jesus Cristo nos dá a conhecer. Sejamos fraternos e teremos amigos; sem fraternidade não há amizades autênticas.
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