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Editorial
O inverno de Francisco
Texto Opinião | Albino Brás | 13/10/2019 | 11:41
O setor conservador, sobretudo norte-americano, acusa Francisco de estar a ir longe demais nas suas posições sobre o meio ambiente, a imigração, os refugiados, a pena de morte, os direitos laborais, os divorciados recasados que voltam à comunhão
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O Papa Francisco e a Igreja que dirige vivem momentos difíceis. A barca de Pedro vê-se no meio de uma violenta tempestade, e se na essência a Igreja tende à comunhão, o momento presente parece tender à divisão. Na viagem de regresso a Roma, após a visita à África austral, um jornalista perguntou a Francisco se não temia um cisma na Igreja. «Eu rezo para que não haja cismas, mas eu não tenho medo deles», respondeu o Papa, lamentando aqueles que se manifestam abertamente contra si e contra o seu pontificado.

O setor conservador, sobretudo norte-americano, encabeçado por alguns cardeais, acusa Francisco de estar a ir longe demais nas suas posições sobre o meio ambiente, a imigração, os refugiados, a pena de morte, os direitos laborais, os divorciados recasados que voltam à comunhão. O Sínodo da Amazónia, que decorre em outubro, em Roma, está a ser duramente contestado por cardeais que questionam a sua oportunidade e o conteúdo do documento preparatório.  

Já os setores progressistas – o caso dos bispos alemães –, consideram, pelo contrário, que Francisco já deveria ter posto em marcha na Igreja reformas que eles consideram urgentes para o nosso tempo. É o caso do celibato do clero e o papel das mulheres na Igreja. A luta na Igreja parece estar entre os que querem uma Igreja sonhada pelo Concílio Vaticano II (1962-65) e os que ainda resistem aos ventos de mudança que este Concílio trouxe.

Francisco sempre criticou o carreirismo na Igreja, denunciando os que se escondem atrás de intrigas palacianas e guerras de poder. Por outro lado, tem proposto uma Igreja Sinodal, ou seja, participativa, e que tome as decisões de forma colegiada, contra o clericalismo.

O teólogo e cardeal alemão Walter Kasper defende que faz falta no mundo uma globalização espiritual, um humanismo que promova a paz. Tem razão. E as igrejas e religiões deveriam ser as primeiras a trabalhar internamente esse humanismo, que se deve traduzir na busca da verdade, em abertura de pensamento, no respeito pela pluralidade de ideias, e, sobretudo, em procurar viver o que diz este pensamento que se atribui a Santo Agostinho: «Na essência a unidade; na dúvida a liberdade; em tudo a caridade». Algo que está a faltar na Igreja atual. Será que vamos ter um final de pontificado com um Papa debilitado pelas críticas internas? Esperemos que não.
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