Opinião
Quando se vive na margem
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 29/12/2019 | 09:30
Eu pensava que aquilo ia durar para sempre! Mas depois tive de sair – foi um choque. A minha família, é cada um para o seu lado. E eu fiquei sozinho. É triste. É o que é mais triste, estar sozinho!
– Dona Lúcia! Será que eu podia falar com a senhora? Lúcia viu um rapazinho mal trajado, cabelo crescido, expressão dorida. – Em que posso ajudá-lo? – Já não me conhece, dona Lúcia!? Sou o João, o «pequenote» do Lar, lembra-se? João, o pequenote, agora tornado «um homem» deixou-se aquietar no calor sempre viciante de um abraço. – Dona Lúcia, estou aflito, mal posso andar. Há uma pomada que me faz bem mas não consigo comprar. Pensei que talvez a dona Lúcia soubesse como ajudar. – Claro que não podes ficar com dores por falta de uma pomada! Lúcia, rapidamente encontrou forma de assegurar o valor da pomada e de um pouco mais. – Já comeste hoje, João? – Não, mas vou almoçar na associação do bairro. Eu podia ir ao «Cantinho do Pobre» que eles dão as refeições todas, mas é preciso ficar em fila na rua e eu tenho vergonha. Passa tanta «gente normal», e a gente ali... Sei que não sou ninguém nem sou mais do que os outros da fila, mas aquilo faz-me sentir por baixo. E eu não preciso comer muito... No bairro, o almoço é numa sala onde ninguém precisa ser visto e recebem a gente com um sorriso. Ali, a pessoa às vezes até se sente como se fosse importante! – E onde vives, João? – Estou num quarto. Não tem muitas condições, que não tem janela e eu tenho de andar curvado por causa do teto ser baixo, nas águas furtadas, mas é o que o rendimento social dá para pagar. – Não trabalhas? – Às vezes consigo fazer um caruncho, mas é raro aparecer. Como não tenho telemóvel, quando me querem chamar dão recado a um amigo, que às vezes não consegue avisar a tempo. – E não tens mais ninguém, da tua família, por exemplo? – Sabe, dona Lúcia, o melhor tempo da minha vida foi quando estive no Lar. Só que não soube aproveitar! Eu pensava que aquilo ia durar para sempre! Mas depois tive de sair – foi um choque. A minha família, é cada um para o seu lado. E eu fiquei sozinho. É triste. É o que é mais triste, estar sozinho!. Continuaram a conversa à mesa de um café, com um pequeno almoço ligeiro. Antes de sair, comovido, João agradeceu a Lúcia por o ter convidado para uma mesa de café, sem vergonha de estar na sua companhia. Ele, com ela, não sentiu vergonha e não se sentiu pequenino. No dia seguinte, João, o pequenote, voltou a procurar Lúcia. – Vim aqui hoje, dona Lúcia, para agradecer o dia de ontem. Já ando melhor. E quero mostrar o que comprei. Penso que vai ficar chateada, porque isto foi um bocado caro, mas é quentinha e é nova, mesmo só para mim. Depois comprei produtos de higiene e cortei o cabelo, porque no «Cantinho do Pobre» não fica muito bem. A expressão de João era um misto de vaidade por se sentir bonito e a ansiedade de quem espera censura por ter «ousado» comprar uma camisola nova. Lúcia percebeu o seu receio e olhou João com ternura. Quantos elogios este rapazinho merecia. Quanto mimo lhe fora roubado precisava compensar... E foi isso que fez: aconchegou-o no tal abraço que derreteu por instantes os medos de João. A sua honestidade mostrou a Lúcia o tamanho dos pesos que amachucam quem se sente e está «na margem», mas destacou também o mundo desconhecido da grandiosidade humana aí existente. João, o pequenote, possui essa grandiosidade – não sabe. Precisa que alguém lha mostre. Até esse dia, está lá, na margem. Quem vem tirar o João da «margem»?
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